É PRECISO MUDAR O CHÃO EM QUE VIVEMOS

Outro dia passei em frente a um templo religioso na hora de seu culto semanal. Logo de início, achei interessante o número de veículos automotores estacionados à porta do templo, por isso, fiquei alguns instantes parado ao longe ouvindo uma bonita melodia que estava sendo tocada. De repente, o som parou, alguém leu um trecho do Novo Testamento e começou a tecer alguns comentários a respeito do texto proclamado, por mera curiosidade fiquei a ouvir aquela pessoa pregando. Em meio ao discurso empolgado e caloroso, o pregador falou do poder de Jesus, da necessidade de estarmos com ele, que Jesus pode curar nossos sofrimentos, nossas dores e frustrações, que tudo de ruim que acontece no mundo se deve ao fato de sermos pecadores, e é o pecado que nos afasta de Deus etc. O pregador concluiu suas palavras atacando de forma irônica algumas igrejas concorrentes que possuem um discurso diferente, dizendo que a igreja dele sim, era a igreja verdadeira(...)

Ainda curioso esperei o culto terminar e discretamente adentrei naquele templo. Fascinou-me logo de cara o capricho arquitetônico do lugar, parecia que tudo fora feito para deixar o fiel a vontade, também não poderia ter deixado de observar o zelo apresentado na propaganda do dízimo, isso ficava explícito através das sagradas propagandas fixadas em lugar estrategicamente reservado para tal fim.

Fiquei alguns instantes a observar o lugar, a alguns metros de mim havia um grupinho de jovens conversando à porta, não me deram tanta importância, apenas me olharam, como se diz no popular, com rabo de olho, notei que fizeram alguns comentários entre si, não sei o que pensaram ao meu respeito, talvez até tenham pensado mal, também pudera, eu adentro um lugar daqueles vestindo a simples roupa que uso para passear com o cachorro no quarteirão da minha casa. O fato é que ninguém veio falar comigo, confesso que estranhei, pois já haviam me dito que aquele tipo de gente acolhia tão bem as visitas e que sabiam cativar as pessoas. Nem eles, nem o pregador, quem não tive a chance de conhecer, vieram até mim. Meio sem graça, dei um sorriso amarelo para o grupinho que me observava, matei minha curiosidade, coloquei o rabinho entre as pernas e saí porta afora como cachorro desconfiado.

Você deve estar se perguntado qual o nome dessa igreja que visitei. Caro irmão, poderia ter sido qualquer uma: a de Santo Antonio, de Nossa Senhora da Assunção, de São Jerônimo, inclusive a da sua comunidade, ou você achou que eu estava falando de alguma igreja protestante. Infelizmente, ultimamente pouca coisa tem nos diferenciado das demais denominações cristãs, não quero com isso dizer que somos melhores ou piores do que muitas igrejas por aí, há algumas que de fato são verdadeira picaretagem, especialistas em charlatanismo e conhecidas por se aproveitarem da boa fé do povo. O que estou querendo questionar é que alguma coisa em nosso jeito de ser cristão parece que se perdeu, alguma coisa que historicamente nos diferenciava dos demais, algo que pertence ao jeito de ser de Jesus que encantou e inspirou a tantos e tantas.

A experiência relatada acima é fictícia, criei-a para que reflitamos qual tem sido o diferencial do ser cristão católico hoje e não vale darmos as respostas de sempre baseadas exclusivamente em parâmetros doutrinários. Afinal de contas, o que temos feito de diferente que provoque a sociedade a se interpelar sobre suas escolhas e práticas? Acusamos sempre a sociedade capitalista neoliberal de ser contra os valores cristãos (os defeitos estão sempre nos outros), acho que devemos ver como anda nossa compreensão e testemunho do Reino pregado por Jesus e pelo qual ele deu sua vida.

O título deste pequeno artigo diz “é preciso transformar o chão em que vivemos”, a palavra transformação, em seu sentido profético e completo, do ponto de vista bíblico, sumiu do vocabulário cristão e passou a dar lugar apenas à transformação espiritual do ser humano. É preciso mudar interiormente para podermos construir o Reino de Deus, disso não resta dúvida, a construção do Reino implica necessariamente nesta mudança, mudança que poderíamos chamar também de conversão, conversão que remete o convertido a adesão livre e consciente as exigências da proposta de Jesus. A questão é se estamos cientes das implicações concretas de tal transformação/conversão. O homem transformado em Cristo transborda essa transformação para espaços que precisam ser modificados, passando pelo nível das relações familiares, econômicas, políticas, sociais e eclesiais, essas realidades são inerentes ao homem todo, interferem em seu comportamento e reconstroem seus valores.

Nas últimas décadas os cristãos têm se distanciado das lutas reais da vida e abdicado do seu potencial transformador, os preceitos religiosos tem substituído o seguimento de Jesus e alienado seus hipotéticos seguidores, Jesus virou uma palavra adocicada quase um entorpecente de consciências, parece até que seguir Jesus virou sinônimo de isolamento dos problemas do mundo, daí existirem comunidades envoltas em uma espécie de autismo coletivo num mundo só seu, totalmente alheias ao que lhes acontece no seu entorno, sem conhecerem o chão que estão pisando. Essas comunidades estão taxadas ao fracasso, pois ficaram reduzidas a um punhado de fiéis fechados em suas práticas institucionais, trancados em uma bonita capela, achando-se a última esperança para a humanidade, e isso ocorrerá porque uma comunidade que não consegue sensibilizar-se com as dores do cotidiano não terá nada para dizer ou mostrar para a sociedade.

A compreensão da realidade, da dureza do nosso chão, nos ajuda a exercer de forma mais concreta nossa missão de ser luz, sal e fermento para a sociedade: luz serve para iluminar caminhos, dissipar trevas e mostrar o que está escondido, não importa se feio ou bonito, toda luz é orientadora e denunciadora. A luz não existe para si, mas para iluminar outros, dar-lhes a visibilidade que não possuem na penumbra, luz não se joga na cara dos outros, a luz é sempre direcionada para frente dos pés para que o outro possa caminhar. Ser sal para dar sabor à vida daqueles que já não sentem mais o sabor de viver, que perderam o encantamento, que não têm mais esperança de dias melhores, que cansaram da luta e acham que tudo está perdido. O sal reanima, dá-lhes nova pulsação, ajuda a conservar a coragem, ergue o caído para lutar de novo com vigor renovado. O fermento é discreto, mas dá volume, faz crescer, provoca a reação da massa sem manobrar a massa, ele dá apenas as condições necessárias para que a massa, quando exposta ao fogo, não se dissipe, mas reaja e se torne algo maior, bonito de ver e gostoso de experimentar.

O discipulado de Jesus só tem significado se para fora da comunidade, e para isso não é suficiente ter fé em Jesus, mas ter a fé de Jesus e isso requer renúncia e a morte de velhas convicções religiosas para ter coragem e estar disposto a se expor sem seguranças e garantias.

Volto agora à questão do início dando a evidente resposta: o diferencial que nossas comunidades deveriam resgatar não é nada mais do que traduzir o amor pelo povo, “resto de Israel”, em atitudes concretas, sofrendo com o povo, rindo com o povo, lutando, caminhando com o povo, sendo um sinal da presença do Deus libertador em meio aos cativos do mundo moderno. As comunidades não precisam pensar que se muda o chão em que se vive através de projetos faraônicos, não que devamos esquecer as grandes lutas ou temê-las por medo de sua complexidade, sim, elas devem ser encaradas sem medo, porém é a simplicidade do gesto em favor do irmão menor que caracteriza a grandeza do gesto, é preciso sempre lembrar que o ponto de partida de toda grande transformação é uma pequena transformação.

Nossas comunidades não são impotentes diante das situações de morte do mundo, a morte nunca triunfará porque é Cristo que nos garante a vitória, o que às vezes nos falta é acreditarmos que mesmo nos momentos de tormenta em que achamos que a barca vai afundar, ele se encontra ali, conosco, e é sua presença serena e constante que nos dá a coragem de lutarmos e vencermos qualquer tempestade.

Paulo Clesson dos Santos.
Catequista e Ministro da Palavra.

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