Outro dia um grupo evangélico de denominação batista visitou a escola que leciono. Eu me encontrava em sala de aula quando a coordenadora avisou que iríamos assistir uma apresentação teatral desse mesmo grupo. Fiquei um pouco apreensivo, não pelo fato de serem evangélicos tentando ganhar católicos para sua igreja, mas pela aceitação da mensagem por parte dos alunos, afinal de contas, parar para assistir uma apresentação apelativa de temas religiosos não faz muito o estilo dos meus alunos(...)
Dirigimo-nos ao pátio interno da escola e logo de cara me surpreendi com a estrutura montada pelo grupo visitante: pequeno equipamento de som, mas de qualidade, bons microfones, pequeno palco montado, um notebook (que depois descobri a utilidade) e gente muito bem produzida, apresentáveis para um show. Quando alunos e professores já haviam tomado seus lugares no pátio o grupo, composto por jovens, posicionou-se diante dos microfones numa formação coral, eu, como regente de coro, pensei: “espero que venha coisa de qualidade”. O Grupo, então, começou a cantar uma bonita canção, vozes divididas, impostação de voz perfeita, expressão facial condizente com a emoção transmitida pela música, junto com uma postura cênica que dava vida ao canto, algo muito profissional, perfeito.
Olhei para os alunos, todos estavam atentos, mesmo os que se encontravam mais distantes. Terminada a canção, os integrantes do grupo evangélico se apresentaram, disseram seus nomes e o propósito de seu trabalho. Em seguida, apresentaram uma pantomima (peça teatral sem fala, apenas gestos) acompanhada com música. Houve uma rápida palestra ilustrada com desenhos rabiscados na hora pela palestrante em um cartaz e ao final outra canção em coro.
Durante esses momentos, a reação de meus jovens alunos era de atenção, até os que não eram religiosos assim permaneciam, a arte os cativara, foram rendidos nem tanto pelo conteúdo da mensagem em si, coisa que muitos já haviam ouvido, mas pela embalagem, ou seja, pela mensagem transmitida com arte.
Terminada a apresentação todos foram convidados a assistir um musical que o grupo apresentaria à noite no galpão da prefeitura da cidade. Fui para o show à noite e mais uma vez me surpreendi, não que eu nunca tenha visto shows musicais de qualidade ou que desconhecesse a prática do coral cênico, mas fazia tempo que não via alguém fazendo isso com tanta propriedade e competência para um tema religioso. Foi um grande espetáculo.
Tudo isso me fez refletir uma coisa: nós católicos, como temos apresentado aos jovens a proposta de Jesus, qual tem sido nossa metodologia? Ao que me parece essa pergunta esbarra numa situação complicada. Já faz um bom tempo que o trabalho com jovens na igreja, não é prioridade. Temos iniciativas isoladas de movimentos que, dentro de suas estruturas, trabalham para apresentar o próprio movimento ao jovem. As PJ's, antes tão fortes no Brasil, perderam espaço, estacionaram no tempo no que se refere aos métodos de trabalho. O fato é que não temos na prática algo orgânico, talvez no papel, mas de forma efetiva não.
Reclamamos muito da ausência dos jovens em nossas comunidades, mas fazemos pouco para cativá-los. É preciso repensar a embalagem da mensagem que apresentamos e a própria mensagem. Infelizmente, nossas práticas pastorais, nossas liturgias, nosso discurso, privilegiam adultos e idosos, quando muito as crianças e crianças da catequese, aos jovens nada, e quando alguma coisa lhes é direcionada é com extremo apelo emotivo sem nenhum compromisso com a realidade.
Muitas comunidades ainda acham que um grupinho que se reúne na igreja, ou numa salinha todo final de semana, é sinal de problema resolvido: “estamos evangelizando a juventude”. Na realidade, a maioria desses grupinhos faz reuniões chatíssimas ou, quando não, se resumem a uma cantoria sem fim com músicas totalmente desencarnadas da vida. As duas formas de trabalho só servem para contribuir com o processo de alienação da juventude, coisa que outras instituições também fazem com muita competência.
Por que não atraímos os jovens? É simples, caducamos na nossa metodologia. Algumas lideranças saudosistas ainda acham que estamos nos anos 70 e querem criar grupos com o mesmo espírito daquela época, inclusive cantando as mesmas canções e fazendo as mesmas dinâmicas, outros acreditam que todos os jovens possuem problemas de afetividade e criam verdadeiros ambientes de auto-ajuda em nome de Jesus. Falta sensibilidade, nem todos querem fazer guerrilha e nem todos os jovens estão em busca de terapia espiritual, por isso não há consistência no trabalho juvenil, as comunidades não conseguem penetrar no mundo deste jovem dinâmico da atualidade, não sei se por despreparo ou por medo do confronto de gerações, e gerações de valores e comportamentos diferentes.
Comecei citando o exemplo deste grupo evangélico porque me chamou atenção o uso da arte para cativar os jovens, mas não foi qualquer arte, foi arte para jovens e não foi feita de qualquer jeito, havia beleza, modernidade, profissionalismo e compromisso artístico. Nós católicos não pensamos e nem agimos assim, não incentivamos e nem damos condições para que a juventude se encante com a arte, descubra Jesus pela arte e dessa forma apresentem-no a outros jovens. Somos especialistas em fazer de qualquer jeito e o que mais impressiona é que não é por falta de talentos em nossas comunidades, temos muitos artistas que simplesmente não encontram espaço para expressarem sua fé artisticamente: bons atores, dançarinos, cantores, pintores, poetas etc.
A proposta de Jesus poderá ser mais atrativa se Jesus for apresentado como o que de fato foi, um jovem, que, em nome do Reino, subverteu a ordem religiosa, política e moral de seu tempo e que atraiu adultos, idosos, crianças e jovens para junto de si. Como jovem, Jesus apresentou o Reino de forma ousada, criativa e artística. O que são as parábolas e as máximas de Jesus senão belíssimas poesias sobre a vida, a natureza e a realidade do povo?! E os cenários apresentados pelos evangelistas nos quais Jesus proferiu belíssimos discursos e denunciou as injustiças? Estão carregados de profunda beleza e intencionalidade, montanhas, planícies, lagos, periferias e jardins são apenas alguns exemplos. Fora o caráter teológico destes espaços, cabe perceber o caráter criativo de Jesus, para cada público um ensinamento novo, um espaço, uma intenção. A metodologia de Jesus transpira sensibilidade, pois é através do sensível que Deus fala ao ser humano e não através de fórmulas teológicas vazias.
É preciso que o Jesus apresentado para os Jovens tenha significado para eles, que seja questionador, ativo, mestre, amigo, revolucionário, dinâmico e corajoso, Che Guevara é assim apresentado, talvez por isso muitos jovens prefiram-no em vem de Jesus. A arte pode tornar Jesus apresentável a essa juventude sedenta por novos objetivos, cheia de perguntas, querendo novas respostas e razões pelas quais lutar.
Não há possibilidade de evangelizarmos a juventude sem arte, mas para que isso aconteça é preciso romper com os velhos esquemas e deixar o novo acontecer. Devemos aprender com os jovens que não participam de igreja alguma e olhar sem preconceito a forma como dançam, cantam, se reúnem, escrevem e marcam a passagem de sua geração, em suma, como se expressam num todo definindo assim sua própria identidade. Nesses jovens que não fazem parte do redil cristão, há sempre muita coisa boa a ser aprendida. Façamos nossas ponderações, mas não nos fechemos ao dinamismo dos novos tempos.
Por Paulo Clesson – Professor e catequista da paróquia de Camocim.



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