REFLEXÃO DOMINICAL - Lc 24, 13-35 - 4º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO A

-NOTAS PARA A COMPREENSÃO DO TEXTO:

O episódio dos Discípulos de Emaús é um dos mais belos da Bíblia e tinha que sair da pena de Lucas. Aliás, ele é o único dos quatro evangelistas a tratar dele. O episódio merecia ser retratado pela palheta de um grande pintor, sente-se. Pois, na realidade, ele foi retratado por dois grandes mestre da pintura: Ticiano e Rembrandt e os quadros estão no museu do Louvre em Paris(...)

No versículo 13 do evangelho de hoje,há que Emaús distava onze quilômetros de Jerusalém, ou seja, duas horas de caminhada para Jerusalém. Enquanto outras traduções dizem que ela distava 30 quilômetros ou cerca de 5 léguas de Jerusalém, que é muita distância a ser palmilhada numa ida e volta seguidas, sendo a volta à noite. Devemos ficar com a tradução dos onze quilômetros. É que Lucas, interessado no conteúdo principal do episódio, não se interessou pelo detalhe acidental da distância. (Vide José Bortolini no seu livro “Tire suas dúvidas sobre a Bíblia”, pag. 192).

-CRISTO SE FEZ PASSAR POR UM SIMPLES COMPANHEIRO DE VIAGEM PARA ESCLARECER OS DISCÍPULOS DE EMAÚS E O FAZ COM MUITA HABILIDADE.

Os discípulos de Emaús comungavam da visão geral de um Cristo glorioso, rei temporal de Israel, idéia comum naquele tempo, mas a imagem ensanguentada de um Cristo posto na cruz e depois encerrado num sepulcro como qualquer mortal desanimaram os dois discípulos, que viajavam, vamos dizer, de crista caída. Por isso, o encontro com um companheiro de viagem no meio da estrada não melhorou o bom humor deles. Até o trataram com um certo enfado quando o companheiro mostrou-se alheio às ultimas novidades passadas em Jerusalém. Enquanto o novo companheiro narrava, com uma maestria incomum, os sofrimentos por que deveria passar o Cristo nas previsões dos profetas, ainda não melhorou a empolgação deles. Porém, aos poucos, eles foram notando que o novel peregrino não era uma pessoa qualquer, mas a cegueira espiritual estava empanando o brilho dos olhos da fé. Seus olhos só se abriram quando Jesus partiu o pão do mesmo jeito que fez na última ceia, o gesto que tinha que ser uma perpetuação do último momento íntimo de Cristo. Então, a alegria que se apossou deles foi tão grande que não titubearam em marchar logo em seguida para Jerusalém em duas boas horas de marcha, como crianças sem freio, para contar aos companheiros o ocorrido. Chegaram lá já noite escura.

-“Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando.”

O episódio dos discípulos de Emaús nos ensina que Jesus pode conviver conosco muito tempo sem ser reconhecido por nós. Ele pode se revestir da imagem de companheiros nossos, sem as apoteoses e as conhecidas teofanias dos tempos bíblicos, para agir em nós. Veja bem que ele caminhou duas longas horas pela estrada afora, ignorado pelos companheiros. Outra coisa que observamos é que é na hora do congraçamento, da ajuda ao outro e da partilha é que ele costuma se dar a conhecer. Ao chegar ao povoadinho de beira de estrada, Emaús, Cristo ensaiou o estratagema de seguir mais adiante, como se sua morada fosse mais distante. Foi a insistência caridosa dos dois viajores que conseguiram que ele ficasse com eles. E depois foi na hora de partir o pão que as feições do amigo venceram a cegueira espiritual dos Discípulos de Emaús.

-CONCLUSÕES:

Vemos no episódio do evangelho de hoje a predileção de Jesus por estar conosco sem ser pressentido na figura talvez de um companheiro nosso. Desse modo é que ele age em nós através das criaturas humanas. Tiremos de nossa cabeça a ideia enraizada em nós das aparições de Deus no meio dos trovões ou de milagres extraordinários. Não prolonguemos a nossa cegueira espiritual. É preciso é procurá-lo nos lugares onde ele deve estar, tentemos reconhecê-lo no rosto dos nossos semelhantes. Temos uma dica para saber o momento em que Ele, de repente, se dá a conhecer: é na hora de partir o pão.

Há outra lição a tirar do episódio de hoje. Antes que anoiteça por completo em nossa vida, lembremo-nos de apelar pra ele com insistência: Fica conosco, Senhor, porque já anoitece.

Por Francisco Valmir Rocha - Membro da Pastoral Bíblica de Camocim/CE

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