Reina na política um vale-tudo. Ganha-se a custa de qualquer valor e dignidade. Assistimos à vergonhosa troca de benesses, ao aproveitar-se dos cargos públicos para beneficiar parentes e amigos. Não se debitam as perdas morais. Unicamente os ganhos materiais e de prestígio(...)Jesus entra em cena. Lança-nos o desafio. "Quem quiser salvar sua vida a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará. (Mc 8, 35)". Dito extremamente dialético. Lá se vão dois mil anos e ainda nos custa captar-lhe a densidade do ensinamento. Jesus não imagina unicamente situações extremas e heróicas. Ao longo da história, tantos e tantos doaram a vida até o extremo de morrer para que outros a ganhassem. Nesse gesto de generosidade sentiam que eles também estavam a lucrar algo de sublime. Não no sentido material como nas atuais barganhas.
Tiradentes sofreu o peso da opressão colonialista portuguesa até a morte para legar-nos o processo de independência. Hoje sua morte se celebra como feriado nacional. O frade franciscano Maximiliano Kolbe se ofereceu para morrer de fome em lugar de um pai de família no campo de concentração nazista de Auschwitz, o qual fora sorteado para morrer como castigo pela fuga de um prisioneiro. Entrega heróica da vida para que um outro com esposa e filhos vivesse e ele morria no silêncio de seu celibato. Cientistas consumiram a vida em pesquisas para trazer saúde. O exemplo do médico judeu-americano Albert Sabin que desenvolveu uma vacina contra paralisia infantil impressionou-nos. Ele acompanhou pessoalmente campanhas de vacinação e exibia enorme felicidade por imunizar crianças dessa terrível doença. Ganhara vida com a entrega de tanto sacrifício e empenho.
Evidentemente Jesus consagrou em grau sublime tal dialética. Ninguém como ele perdeu tanto para que ganhássemos a eternidade. Podia continuar sua eternidade de felicidade ou ter andado divinamente entre nós. Mas humilhou-se e assumiu a forma de escravo até a cruz para que toda a humanidade vivesse de vida nova.
Admiramos esses casos limites. Jesus pensou também no cotidiano simples e comum. Que significa perder a vida aí? Identificamos a vida com o tempo. Declinamos nossa existência pelo número de anos. Então surge a pergunta: como gastamos o tempo? Num relance de olhos, percebemos o que nos ocupam principalmente as energias. Entra então Jesus. Como nos sentiremos perdidos no declinar da vida se despendemos o tempo em falcatruas, cambalachos políticos, corrupção, desvario sexual, hedonismo consumista e materialista? Ou, pelo contrário, que imenso ganho, alegria e vida nos invadirão, ao olhar o tempo empregado no serviço aos irmãos, na luta pelas causas maiores, pela justiça social, pela libertação dos pobres!
FONTE: J. B. LIBÂNIO


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