ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

1. O Mandato de Jesus:

Jesus disse: “é preciso que eu anuncie o Reino de Deus também a outras cidades; para isto é que fui enviado” (Lc 4,43). O entusiasmo missionário de Jesus em relação ao anúncio e a construção do Reino, o seu ardente desejo de “trazer o fogo sobre a terra” a fim de que todos se contagiassem, o leva a dizer aos seus discípulos: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20)(...)


Este mandato provocou, com efeito, o anúncio do Evangelho a todo mundo, imediatamente após a Ascensão de Jesus ao céu. Paulo o sentirá no seu coração como um imperativo permanente: “ai de mim se não pregar o Evangelho” (1Co 9,6). E ao seu discípulo Timóteo dá este conselho: “prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir” (2Tm 4,2).

2. O EMPENHO: dever de toda a Igreja.

A Igreja nasce do Coração transpassado de Jesus e da ação evangelizadora dos doze, e desde o início sente a necessidade de evangelizar. E nisto consiste a sua mais profunda identidade: “A Igreja existe pela evangelização” (EN 14). A Igreja, mediante um dinamismo permanente, começa a evangelizar a si mesma: “A Igreja tem sempre necessidade de ser evangelizada, se quer manter o seu frescor, o seu impulso e a sua força para anunciar o Evangelho” (EN 15).

O objetivo principal da atividade missionária é a Glória de Deus, mediante a realização de seu plano salvífico para toda a humanidade (AG 7). A missão da Igreja se orienta para a construção de uma humanidade na comunhão, na fraternidade e no amor. O tema da espiritualidade missionária lentamente foi-se aprofundando, sobretudo após o Concílio. De modo especial a Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (Cap. 7), apresenta a espiritualidade da evangelização e de quem evangeliza:
a) Fidelidade ao Espírito Santo (EN 75).
b) Vida evangélica autêntica, rica da experiência de Deus (EN 76)
c) O serviço da unidade (EN 77).
d) O serviço da verdade (EN 78).
e) Zelo apostólico e caridade pastoral vividas na alegria pascal (EN 79-80).

2.1. A Espiritualidade Missionária

Como a umidade e a água não se vêem debaixo da erva, mas a mantém verde e a fazem crescer, assim a espiritualidade missionária mantém viva (verde) a nossa atividade missionária. A Encíclica “Redemptoris Missio” fala de:
• Um renovado empenho missionário, de um novo entusiasmo, de novos estímulos (n. 2).
• De uma renovação da fé da Igreja.
• De uma nova evangelização (n. 3).
• De uma vida nova (n. 7).
• De um novo impulso da atividade missionária (n. 30).
• De novas formas de cooperação missionária (n. 82).
•De uma nova convergência de povos para valores comuns; a nova primavera do Evangelho (n. 86).
• A aurora de uma nova era missionária (n. 92).

Tudo isto não teria sentido se não existissem homens novos na novidade do Espírito Santo, que se lançam utopicamente para outras fronteiras.

Para isso, a Encíclica apresenta as dimensões da espiritualidade missionária:
1. Trinitária: a missão da Igreja brota da fonte do Deus Amor.
2. Pneumatológica: viver inteiramente dócil ao Espírito; deixar-se modelar por Ele, para ser cada dia mais semelhante ao Cristo. O Espírito te concederá os dons da fortaleza e do discernimento, essenciais para a espiritualidade missionária (87).
3. Cristológica: o contato pessoal com Jesus que devemos imitar e seguir. Daí nasce o conceito de missão e a disponibilidade para a mesma. Pelo fato de ser enviado, o missionário faz a experiência consoladora de Cristo.

Como deve viver o missionário autêntico:
• Viver com Cristo: chama-nos amigos.
• Viver como o Cristo: aprender com ele e assumir seu estilo de vida (humildade, servir Deus e os irmãos) para ser suas testemunhas.
• Estar unidos em Cristo: a fé se vive na partilha e na comunhão dos projetos como Igreja; “Pai, que sejamos um, para que o mundo creia...” (Jo 17,21).
• Dar a vida com Ele e como Ele: “não vim para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por uma multidão” (Mt 20,28).
• Dar a vida pelo Reino.

4. Eclesiológica: amar a Igreja como a ama o Cristo; amar as pessoas, a Igreja e a todos os povos. Como nos ensina Paulo: “a preocupação por todas as Igrejas” (2Co 11,28). Para o missionário, a fidelidade a Cristo não se pode separar da fidelidade a Igreja (n. 89 PO 14). O serviço pastoral ou caridade apostólica inspira-se na caridade pastoral de Cristo, o bom Pastor, que conhece as suas ovelhas e dá por elas a sua vida (Jo 10). A caridade pastoral é feita de bondade, de atenção, de disponibilidade, de interesse pelos problemas das pessoas. O missionário é o homem da caridade.
5. Antropológica: “a atividade missionária tem como único objetivo servir o homem, revelando-lhe o amor de Deus manifestado em Jesus” (n. 2). O missionário é o “irmão universal” que vai além das fronteiras e das divisões de raça, cultura, ideologia. Está aberto à evangelização dos novos areópagos (Meios de Comunicação Social, desenvolvimento, ecologia, direitos humanos, e sobretudo “o sentido da vida”).
6. Escatológica: conduz a humanidade e o universo para a restauração final.
• Esta dimensão eclesial da missão se realizará mediante uma ação pastoral adequada, que compreenda certos aspectos, como a transcendência, a proximidade, a contemplação, o profetismo, o diálogo e a inculturação.

2.2. “A espiritualidade missionária da Igreja é um caminho para a santidade”

O renovado impulso para a missão “ad gentes” exige missionários santos. Não basta renovar os métodos pastorais (n. 90). Requer-se:
• Uma constante renovação espiritual, doutrinal e apostólica.
• A contemplação na ação (procurando respostas a luz da Palavra e da oração).
• A prática das bem-aventuranças.

O fruto deste dar-se no espírito das bem-aventuranças é a alegria interior.

3. A procura de uma Espiritualidade Missionária

“A missão é a razão de ser da Igreja... é a atividade própria da identidade cristã” (EN). É um modo eminente de seguir Jesus, que significa colaborar com Ele na salvação e na libertação do mundo, ou seja, na extensão do Reino. Seguir Jesus e a missão caminham juntos: “Chamou os doze... seguiram-no e anunciaram o Reino de Deus” (Mc 1,16ss). Seguir Jesus missionário significa ser missionário com ele, com os seus critérios, suas escolhas, suas atitudes, com a sua espiritualidade.

3.1. Qual é o espírito da missão?

A Igreja vive num estado de missão permanente, isto significa:
• “ir além” para encontrar os que estão longe, os menos evangelizados: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações” (Mt 28,19).
• Ter o dinamismo do Êxodo: sair do próprio mundo (cultura, religião comodidade, etc.) para ir ao encontro daqueles que nada possuem, que não podem, que não conhecem...
• Viver uma mística especial: trata-se de morrer um pouco para si mesmo para dar-se totalmente à causa do Reino. É um projeto de vida total, onde deve haver uma identidade entre a mensagem proclamada e a vida.

Trabalhar sob novas fronteiras:

Sob a fronteira dos pobres:

• Descobrir os novos pobres e as novas pobrezas; o abismo entre ricos e pobres; a opressão, a discriminação.
• Ser solidário com os membros sofredores do Corpo de Cristo.
•Dar testemunho de uma Igreja profética, inserida e a serviço: que manifeste de modo explícito a proximidade e a bondade de Deus, a sua predileção pelos marginalizados.
• Estar do lado dos excluídos e dos novos pobres, lá onde o missionário dehoniano vive e trabalha.
• Assumir o empenho concreto de solidariedade que se manifesta em atitudes, projetos e iniciativas que promovam a dignidade da pessoa humana e a transformação da sociedade.

Sob a fronteira da diversidade cultural e religiosa:

Trabalhar com um espírito aberto a todos, especialmente as diversas culturas, procurando inculturar-se.

Sob a fronteira dos leigos e da juventude:

• Promover a dignidade das minorias.
• Evangelizar a “cultura do mundo dos jovens”.
• Acolher os desafios da juventude e optar pelos jovens no seu meio.
• Formar-se para a missão: promover uma formação integral e que ajude a integrar os valores evangélicos na nossa vida; que nos faça missionários sempre mais identificados com o carisma da Congregação e empenhados com a história...

3.2. Como poderia ser o nosso empenho missionário?


• Testemunhar a comunhão como resposta profética.
•Ser comunidade que construa a união na diversidade, sinal e testemunho de intercâmbio cultural.
• Reforçar o sentido de universalidade.
• Avançar no processo de inculturação, vivida como processo de encarnação.

4. Uma espiritualidade missionária para uma nova Evangelização.

A Igreja se encontra frente a novas situações que requerem novos evangelizadores. É preciso começar uma evangelização nova com entusiasmo, nos seus métodos e no seu modo de manifestar-se. “A Igreja é chamada a transmitir uma alma a sociedade moderna, evangelizando com uma linguagem totalmente nova, e propondo uma síntese criativa entre evangelho e vida.

Os evangelizadores devem ser especialistas em humanidade e conhecerer em profundidade o coração do homem de hoje; participar de suas alegrias e esperanças, e ao mesmo tempo ser contemplativos enamorados de Deus, capazes de colocar o mundo moderno em contato com a energia vital do Evangelho.

O Vaticano II, na GS 4, diz que somente mediante uma grande sensibilidade espiritual é possível escrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, e assim adaptado a cada geração, possa a Igreja responder aos perenes questionamentos da humanidade. Para uma nova evangelização, os apóstolos de hoje devem renovar a sua relação com Deus (contemplação), as suas relações com os irmãos (comunhão), a sua capacidade de inserir-se no mundo (inserção), coerentes com o Evangelho (autenticidade) e com um verdadeiro sentido do transcendente (esperança).

A Espiritualidade missionária nos faz viver e descobrir, na doação pela missão, a prioridade e a iniciativa de Deus. A renovação autêntica da Igreja, sob a ação do Espírito Santo, se realiza segundo o paradigma do Cenáculo (At 1,14): reunidos com Maria, para implorar o Espírito Santo e obter a força e o entusiasmo para levar a termo o mandato missionário.

5. Para uma Diocese Missionária

A finalidade principal da pastoral missionária é o de conseguir que toda a comunidade eclesial e especialmente a Igreja local, se converta em comunidade evangelizadora. Não se pode evangelizar uma comunidade se ela não se torna, desde o início, responsável pela evangelização local e universal. Para isso é preciso uma animação missionária permanente. Isto requer de colocar a Diocese numa situação de MISSÃO PERMANENTE. Uma das finalidades do V CELAM de 2007, em Aparecida, é o de provocar uma missão permanente em nível de continente; isto deverá partir sem dúvida da consciência de que cada diocese e cada batizado é, ao mesmo tempo, discípulo e missionário.

Cada pessoa “é” uma missão; o seu ser mais íntimo é orientado para uma missão no mundo. Não há três chamados: à vida, ao discipulado e a missão, mas um único chamado de Deus que nos ama e nos chama para anunciar com a nossa vida a missão que nos confiou “amando-nos antes da criação do mundo”. Esta convicção faz com que cada um seja “fervorosamente comunitário”, porque foi criado a imagem da Trindade e é chamado a comunhão plena com Deus-Trindade, vivendo aqui a comunhão plena com os irmãos.

Deste modo os agentes de pastoral são discípulos em comunhão e missionários como sujeitos comunitários. Se numa paróquia nos fechamos para pregar aqueles que “já conhecem Jesus”, nos tornamos “administradores paroquiais” e anulamos o nosso dever missionário. Se nos abrimos àqueles que não conhecem Jesus e para aqueles que são fracos na fé, sentiremos o entusiasmo missionário e procuraremos com todos os meios fazer chegar à mensagem de Jesus a todos, evangelizando todos os setores (diversas pastorais). Devemos formar os agentes pastorais a uma sólida e profunda espiritualidade, para que a atividade apostólica não seja vazia, superficial e rígida, mas antes entusiasta, corajosa e eficaz.

O apostolado é vida e é profundamente espiritual, por isso é também um caminho para a realização pessoal que dá felicidade. O mandato missionário de Cristo se dirige a todas as pessoas, situações de vida, instituições e serviços da comunidade. Cada qual participa de modo diverso desta responsabilidade missionária. É preciso aprender a “dar da nossa pobreza” (Puebla 368), conscientes que “é melhor dar que receber” (At 20,35).

6. Condições para uma espiritualidade missionária: qualidade do missionário

a) O missionário deve ser um contemplativo: capaz de transmitir não somente idéias, mas sobretudo a sua experiência pessoal de Jesus e dos valores do Reino. O missionário é “aquele que age como se visse o invisível”. Somente a fé e a contemplação nos colocam na presença do Deus invisível. O missionário é aquele que se dá por inteiro a vinda de um Reino que vai além do que ele é e o que ele realiza. Vive com a esperança e a serenidade daquele que colocou a sua fidelidade na vontade de Deus, trabalha com o ritmo querido por Deus e não como ele pensa ou crê; do contrário, corre o risco do desânimo e da frustração.
O exemplo de vida do missionário são os profetas: mandados por Deus para reunir o povo ao redor do único Deus e denunciar as idolatrias sempre novas. São mandados ao deserto, lugar da solidão e da pobreza, onde Deus purifica seu coração e se manifesta a eles. Mas, sobretudo, o missionário assume como exemplo de vida o modo de agir de Jesus, mandado pelo Pai para anunciar a Boa Nova a todos, que ama a todos, se coloca a serviço de todos, dá a sua vida por todos, e chama a todos a plenitude de vida.

b) O Missionário escolhe a pobreza como estilo de vida: e não somente na privação dos meios, mas também com a presença entre os pobres, o seu estilo de vida austero, etc...
• Vive o Êxodo eclesial: isto é, deixa a própria comunidade eclesial, o seu modo de ser Igreja para apoiar outra Igreja irmã ou para implantar a Igreja como sinal do Reino aonde ela não existe ainda.
• Vive o Êxodo cultural: isto é, deixa a própria cultura para assumir outra e dar seu contributo para uma nova interpretação cristã aos valores já presentes.
• É um salto no vazio na fé da Igreja. O empobrecimento do missionário exige muita maturidade para poder superar o medo e a frustração.

c) O missionário deve ter confiança na ação do Espírito que chama a Igreja e na eficácia dos meios próprios da atividade missionária: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça” (Jn 16,16). O missionário sabe que age em nome de toda a Igreja. A base da sua paciência é o espírito das Bem-aventuranças. Isto o levará a respeitar as pessoas, a não impor nada, mas a fazer com que cada pessoa encontre o seu caminho; saberá valorizar a verdade que há no outro, numa atitude permanente de humildade.

d) A espiritualidade missionária exige o espírito de peregrino e do “provisório”. O missionário está disposto a “ir além”, onde precisam dele, sem criar raízes ou fazer carreira. Se sente internamente livre e disposto as mudanças com serenidade. “Eis-me, Senhor, para fazer a tua vontade”.

e) O missionário está consciente do chamado a santidade pessoal e comunitária e de ser enviado em nome da Igreja; por isso ele se preocupa em construir a comunhão na diversidade, vivendo esta mesma experiência com a sua comunidade religiosa e paroquial.

f) O Missionário vive a alegria do dom de si mesmo, sabendo que “Deus ama aquele que dá com um coração alegre”. Como missionários nos sentimos contentes da nossa vocação: “Ser discípulos e missionários para que todos os povos tenham a vida em Cristo”, porque Ele é o caminho, a verdade e a vida. Padre Dehon nos diz: “Nós devemos ser como o fogo para fazer conhecer o amor do Coração de Jesus. Que o nosso desejo seja morrer em missão porque assim o nosso sacrifício será completo e sem reserva”.

(Palestra do Pe. Marcello Palentini scj, (Bispo de Juyjuy - Argentina) na Conferência Geral de Varsóvia, Polônia, do dia 16 a 24 de maio de 2006)

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