POR QUE O MÊS DE SETEMBRO É O MÊS DA BÍBLIA?
O mês de setembro é um dos meses temáticos – isto significa que, além dos temas que a própria liturgia traz em cada domingo e celebração – existe um assunto que nos ajuda a refletir sobre nossa caminhada de fé.Aclamado como “Mês de Bíblia”, este mês quer nos ajudar a aprofundar o amor pela Sagrada Escritura e situar a centralidade da Palavra de Deus em nossas vidas, seja pela reflexão e estudo seja pelas celebrações(...)
É evidente que a Palavra de Deus é a luz de nosso caminho e está presente em todos os sacramentos que celebramos, em cada missa ou celebração da palavra que temos, além, é claro, da oração diária, reflexão e leitura.
A leitura orante da Bíblia com o método “ler, meditar e orar” faz parte dos ensinamentos dados a todos os cristãos, e com bastante insistência, desejando que seja o alimento diário.
O mês da Bíblia surge devido principalmente à comemoração do dia de São Jerônimo, celebrado no dia 30 deste mês. Ele foi encarregado pelo Papa Dâmaso de preparar uma das mais importantes traduções bíblicas, a "Vulgata", tradução do hebraico e do grego para o latim. Lembremos que São Jerônimo viveu entre 340 a 420, portanto, na segunda metade do século IV e início do século V. O Papa Dâmaso morreu em 385 e São Jerônimo iniciou uma série de viagens ao Oriente, passando grande parte em Belém, entregue totalmente à tradução e comentário da Sagrada Escritura. Além de sua vida austera, coerente e santa é tido como um dos melhores Padres da Igreja e é considerado como “patrono dos biblistas”.
É por isso que o quarto domingo deste mês é o domingo da Bíblia. Normalmente seria o domingo mais próximo da festa de São Jerônimo. É quando, ao comemorarmos o Dia da Bíblia, fazemos o nosso exame de consciência e os propósitos com relação não só à leitura, mas, principalmente, em colocarmos em prática a Palavra do Senhor, guiados pelo Espírito de Deus.
A Palavra de Deus está sempre ao alcance da mão e do coração de quem segue a Deus. E por moção do Espírito Santo, a Palavra vai transformando o coração das pessoas e moldando a comunidade cristã. É claro, supondo um coração aberto, como de discípulo diante do mestre. O profeta Jeremias fez uma experiência profunda: nas mãos de Deus sentiu-se como um vaso de barro nas mãos do oleiro.
As famílias, os grupos e as comunidades que lêem a Bíblia de fato progridem na vivência do Evangelho, em unidade com a vontade de Deus e na comunhão fraterna. A Palavra meditada impulsiona as pessoas a superar o pecado e o azedume, causando certa plenitude espiritual com uma aura de paz e de alegria. É o encantamento espiritual, a força interior, a capacidade de passar imune pelas tentações que rodeiam as pessoas.
São Francisco de Assis, um dos grandes revolucionários da humanidade, apregoava a vida fraterna em meio ao egoísmo; a vida em Deus, mesmo em meio ao prurido da carne e do consumismo; a alegre adesão à vontade de Deus, vencendo o orgulho e a sede do poder. Quando se chega a uma fraternidade assim, logo se capta o perfume do Evangelho.
Neste mês de Setembro de 2009, a Igreja nos convida a refletir sobre uma das cartas paulinas mais importantes, a Carta aos Filipenses. A Carta mostra como a missão evangelizadora é tarefa comunitária. Por isso, são muitas as pessoas envolvidas: Paulo, Timóteo, Silas, Epafrodito, Lídia, Sízigo,Clemente, Evódia, Síntique, os cristãos da casa do Imperador, os epíscopos (vigilantes) e diáconos (servos). A comunidade de Filipos ensina que a boa nova de Jesus exige a prática da solidariedade e da partilha dos bens (4,10-20).
Seja feliz! Conheça, leia e medite a Palavra de Deus.
REFLEXÃO DO EVANGELHO DOMINICAL - Mc 7, 1-8.14-15.21-23 - ANO B - 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM
NOTAS PARA COMPREENSÃO DO TEXTO:OS FARISEUS eram membros de um partido religioso que se dedicavam ao estudo e cumprimento da Lei Mosaica e das tradições dos antepassados.
O que marcava o fariseu era o apego e o valor que davam às exterioridades. Enquanto exigiam o cumprimento de práticas humanas caducas, seu coração estava distante. Apegavam-se a detalhes minuciosos e os impunham como fardo pesado ao povo. Eles cobravam nada menos que 265 mandamentos e 365 proibições. Por exemplo, no dia de sábado (dia santificado), uma pessoa só podia andar até 2000 passos (uma jornada de sábado). Se uma casa caisse sobre alguém, a vítima podia ser deixada lá dentro, caso pudesse sobreviver até o dia seguinte (Veja "Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos" de Ralf Gower, pag. 354)(...)
O nome "fariseu" significava "separado". Era assim que os seus adversários os chamavam, porque eles se julgavam uma ilha de pureza no meio dos outros, que eles chamavam "impuros", Seus adversários religiosos eram "os saduceus". O ponto de separação era a crença na ressurreição dos mortos, na imortalidade da alma e a existência de espíritos de maneira geral, em que os saduceus não acreditavam.
"O QUE TORNA IMPURO O HOMEM NÃO É O QUE ENTRA NELE VINDO DE FORA, MAS O QUE SAI DO SEU INTERIOR."
Aferrados às exterioridades, os fariseus pautavam sua vida na bitola das formalidades legais, sem dar a mínima para o espírito da lei. Sua religião consistia em ritos exteriores. Até para agradar a Deus, tinham eles as cerimônias certas: queimar bois no altar do templo. Jesus estava enfocado era nas coisas do espírito. "Eu quero misericórdia e não sacrifícios." O que torna impuro o homem sai do coração. É dele que saem as imoralidades, os adultérios, o ódio que os fariseus tinham às pessoas taxadas de pecadoras como os discípulos de Jesus. É dele que saía o orgulho com que eles se empavonavam nas primeiras cadeiras dos banquetes ou nos primeiros lugares do templo. Este era o divisor de águas entre Jesus e os fariseus. Era o ponto central das constantes discussões. Estava fora de dúvida que os tempos novos estavam nascendo. "O Novo Testamento não estará mais sob o guarda-chuva da Lei (a Torá), mas sob o guarda-sol do Amor." (Frei Clarêncio Neotti in Ministério da Palavra - Ano B - pag. 182).
A TRADIÇÃO - Os fariseus davam muito valor às tradições. Até aí nada mau. Só que tradições de autoria humana como "tomar banho toda vez que se voltasse da rua" - "coisinhas que, no máximo, se referiam à higiene pessoal" (coluna-laranja do Domingo de hoje) - eram apregoadas como se fossem divinas e eles se arvoravam como sacerdotes e divinos cobradores desses mandamentos. Iam mais adiante, taxavam de "pecadores" os que não as praticavam, discriminavam-nos e os separavam do convívio social.
REFLEXÕES
Esta palavra "tradição", tão saborosa para os fariseus, venceu os tempos e levanta a cabeça ainda hoje. É comum, atualmente, esta expressão "ser católico por tradição". Ser católico por tradição é assumir a catolicidade dos avós, como se ela fosse aquele ferro que marca o gado da família. Ser católico por tradição é cumprir as formalidades e tradições da família, coisinhas muito parecidas com aquelas cobradas pelos fariseus. Pior ainda quando o "católico por tradição", zeloso de suas tradições "oracionais", passa a discriminar os que não as observam. "É comovente a passagem dos Atos, quando, Pedro, hebreu, entra numa casa pagã: "Bem sabeis que é proibido a um judeu aproximar-se de um estrangeiro ou ir à sua casa. Todavia, Deus me mostrou que nenhum homem deve ser considerado profano ou impuro. Por isso vim, sem hesitar." (At 10, 28) - Vide Frei Clarêncio Neotti no seu livro "Ministério da Palavra" - Ano B - pag. 183).
Francisco Valmir Rocha
A PISCINA E A CRUZ
Conta-se que um excelente nadador tinha o costume de correr até a água e de molhar somente o dedão do pé antes de qualquer mergulho. Alguém intrigado com aquele comportamento, lhe perguntou qual a razão daquele hábito. O nadador sorriu e respondeu:Há alguns anos eu era um professor de natação. Eu os ensinava a nadar e a saltar do trampolim. Certa noite, eu não conseguia dormir, e fui à piscina para nadar um pouco(...) Não acendi a luz, pois a lua brilhava através do teto de vidro do clube. Quando eu estava no trampolim, vi minha sombra na parede da frente. Com os braços abertos, minha imagem formava uma magnífica cruz. Em vez de saltar, fiquei ali parado, contemplando minha imagem. Nesse momento pensei na cruz de Jesus Cristo e em seu significado. Eu não era um cristão, mas quando criança aprendi que Jesus tinha morrido para nos salvar pelo seu precioso sangue. Naquele momento as palavras daquele ensinamento me vieram à mente e me fizeram recordar do que eu havia aprendido sobre a morte de Jesus. Não sei quanto tempo fiquei ali parado com os braços estendidos.
Finalmente desci do trampolim e fui até a escada para mergulhar na água. Desci a escada e meus pés tocaram o piso duro e liso do fundo da piscina. Haviam esvaziado a piscina e eu não tinha percebido. Tremi todo, e senti um calafrio na espinha. Se eu tivesse saltado seria meu último salto. Naquela noite a imagem da cruz na parede salvou a minha vida. Fiquei tão agradecido a Deus, que ajoelhei na beira da piscina, confessei os meus pecados e me entreguei a DEUS e, consciente de que foi exatamente em uma cruz que Jesus morreu para me salvar.
Naquela noite fui salvo duas vezes e, para nunca mais me esquecer, sempre que vou à piscina molho o dedão do pé antes de saltar na água....
"Deus tem um plano na vida de cada um de nós e não adianta querermos apressar ou retardar as coisas pois tudo acontecerá no seu devido tempo..."
SANTO AGOSTINHO: MAIOR EXPOENTE DA PATRÍSTICA
Aurélio Agostinho nasceu, no dia 13 de novembro de 354, na cidade de Tagaste, hoje região da Argélia, na África. Era o primogênito de Patrício, um pequeno proprietário de terras, pagão. Sua mãe, ao contrário, era uma devota cristã, que agora celebramos, como santa Mônica, no dia 27 de agosto. Mônica procurou criar o filho no seguimento de Cristo. Não foi uma tarefa fácil. Aliás, ela até adiou o seu batismo, receando que ele o profanasse. Mas a exemplo do provérbio que diz que "a luz não pode ficar oculta", ela entendeu que Agostinho era essa luz(...)Aos dezesseis anos de idade, na exuberância da adolescência, foi estudar fora de casa. Na oportunidade, envolveu-se com a heresia maniqueísta e também passou a conviver com uma moça cartaginense, que lhe deu, em 372, um filho, Adeodato. Assim era Agostinho, um rapaz inquieto, sempre envolvido em paixões e atitudes contrárias aos ensinamentos da mãe e dos cristãos. Possuidor de uma inteligência rara, depois da fase de desmandos da juventude centrou-se nos estudos e formou-se, brilhantemente, em retórica. Excelente escritor, dedicava-se à poesia e à filosofia.
Procurando maior sucesso, Agostinho foi para Roma, onde abriu uma escola de retórica. Foi convidado para ser professor dessa matéria e de gramática em Milão. O motivo que o levou a aceitar o trabalho em Milão era poder estar perto do agora santo bispo Ambrósio, poeta e orador, por quem Agostinho tinha enorme admiração. Assim, passou a assistir aos seus sermões. Primeiro, seu interesse era só pelo conteúdo literário da pregação; depois, pelo conteúdo filosófico e doutrinário. Aos poucos, a pregação de Ambrósio tocou seu coração e ele se converteu, passando a combater a heresia maniqueísta e outras que surgiram. Foi batizado, junto com o filho Adeodato, pelo próprio bispo Ambrósio, na Páscoa do ano de 387. Portanto, com trinta e três e quinze anos de idade, respectivamente.
Nessa época, Agostinho passou por uma grande provação: seu filho morreu. Era um menino muito inteligente, a quem dedicava muita atenção e afeto. Decidiu, pois, voltar com a mãe para sua terra natal, a África, mas Mônica também veio a falecer, no porto de Óstia, não muito distante de Roma. Depois do sepultamento da mãe, Agostinho prosseguiu a viagem, chegando a Tagaste em 388. Lá, decidiu-se pela vida religiosa e, ao lado de alguns amigos, fundou uma comunidade monástica, cujas Regras escritas por ele deram, depois, origem a várias Ordens, femininas e masculinas. Porém o então bispo de Hipona decidiu que "a luz não devia ficar oculta" e convidou Agostinho para acompanhá-lo em suas pregações, pois já estava velho e doente. Para tanto ele consagrou Agostinho sacerdote e, logo após a sua morte, em 397, Agostinho foi aclamado pelo povo como novo bispo de Hipona.
Por trinta e quatro anos Agostinho foi bispo daquela diocese, considerado o pai dos pobres, um homem de alta espiritualidade e um grande defensor da doutrina de Cristo. Na verdade, foi definido como o mais profundo e importante filósofo e teólogo do seu tempo. Sua obra iluminou quase todos os pensadores dos séculos seguintes. Escreveu livros importantíssimos, entre eles sua autobiografia, "Confissões", e "Cidade de Deus".
Depois de uma grave enfermidade, morreu amargurado, aos setenta e seis anos de idade, em 28 de agosto de 430, pois os bárbaros haviam invadido sua cidade episcopal. Em 725, o seu corpo foi transladado para Pavia, Itália, sendo guardado na igreja São Pedro do Céu de Ouro, próximo do local de sua conversão. Santo Agostinho recebeu o honroso título de doutor da Igreja e é celebrado no dia de sua morte.
POR QUE É DIFÍCIL O DIÁLOGO ENTRE CATÓLICOS E PROTESTANTES?
Não é segredo para ninguém como é muitas vezes difícil o diálogo entre nós católicos e os irmãos protestantes. A exclusão mútua que foi sendo alimentada através dos séculos, gerou um verdadeiro abismo entre nós que nos dizemos seguidores de Cristo, entre nós que nos chamamos de Cristãos.Cristo é a Verdade, e na Verdade não há divisão. Todo cristão deve procurar a Cristo. Ser cristão não é seguir um Cristo, mas seguir o Cristo(...)
Ser cristão é seguir o verdadeiro Cristo, é pisar nos passos do Senhor. Creio eu que todo aquele que se diz cristão concorda comigo quanto a isto.
Felizmente, o diálogo entre católicos e protestantes embora ainda seja difícil, tem se tornado algo cada vez mais constante. Felizmente com a Graça de Deus, tanto nas fileiras católicas quanto nas fileiras protestantes, vemos suscitar pessoas sinceramente interessadas na descoberta da verdade e na troca de informações, na partilha de conhecimentos. Vencidos o ódio mútuo, o preconceito, a soberba e a pretensão e exaltados o respeito, a caridade e a oração, ainda é preciso vencer mais uma barreira que está fortemente enraizada.
Dentre tantas filosofias, ideias e doutrinas que circundam o povo cristão, é necessário identificar o que é realmente cristão para que seja exaltado, e o que não é, para que seja combatido. Para isto, confrontamos estas doutrinas com a Palavra de Deus. É exatamente este o ponto mais difícil entre o diálogo entre católicos e protestantes, pois as duas confissões cristãs possuem entendimento diferente do que seja a Palavra de Deus.
Para os protestantes a Palavra de Deus é somente a Bíblia (com 66 livros no AT, 7 livros a menos do AT Católico). Para os católicos a Palavra de Deus é a Bíblia + a Sagrada Tradição e o Magistério da Igreja Católica.
Esta diferença de concepção é a principal barreira no diálogo entre católicos e protestantes. O entendimento comum do que é a Palavra de Deus, é o primeiro e grande passo para que os irmãos possam atender à oração do Senhor: "que todos sejam um".
Muitas vezes nós cristãos aprendemos que a Palavra de Deus é isto ou aquilo, como aprendemos na escola que o PI (constante matemática) é 3,14. É preciso aprender o por quê das coisas. Um estudo sincero às fontes primitivas da fé, em muito ajudará a identificar o que delimita a Palavra de Deus, se somente o que foi escrito ou algo mais.
Há um conjunto de obras deixadas pelos primeiros cristãos, chamado de Escritos Patrísticos, que é nada mais é do que o testemunho de fé dos primeiros cristãos. Conhecer os Escritos Patrísticos é voltar à Igreja dos primeiros séculos, é fazer uma verdadeira viagem no tempo e conhecer o que era crido por aqueles que amaram o Senhor antes de nós.
O estudioso sincero em descobrir a verdade, não pode desprezar o testemunho de fé daqueles que receberam a fé Cristã da boca dos próprios apóstolos e que os sucederam no governa da Santa Igreja.
Com a ajuda da Patrística, fundamentaremos nosso estudo em algo real e histórico, algo realmente seguro, em vez de emprestarmos ao passado as idéias que muitas vezes equivocadamente temos hoje. Isto significa que conhecendo de forma objetiva a fé dos primeiros cristãos, teremos a oportunidade de saber se é ortodoxa ou herética a nossa fé.
Os escritos patrísticos sem dúvida são um recurso objetivo e histórico, que ajudará católicos e protestantes a identificarem qual era a concepção que o cristianismo primitivo tinha da Palavra de Deus, ajudando assim os irmãos a encontrarem um denominador comum, construindo um caminho seguro para a união dos Cristãos.
FONTE:
http://www.cot.org.br/refletir.php?action=ver&id=40
MÚSICAS PROTESTANTES PODEM SER UTILIZADAS EM CELEBRAÇÕES LITÚRGICAS?
Nos tempos atuais é muito comum ver católicos ouvindo e prestigiando músicas de outras denominações religiosas, usando-as inclusive em certas celebrações litúrgicas. Precisamos refletir um pouco mais sobre essa questão, levando em consideração alguns aspectos fundamentais, conforme as sábias palavras de D. Boaventura:1) "Lex orandi lex credendi" (Nós oramos de acordo com aquilo que cremos). Isto quer dizer: existe grande afinidade entre as fórmulas de fé e as fórmulas de oração; a fé se exprime na oração, já diziam os escritores cristãos dos primeiros séculos. No século IV, por ocasião da controvérsia ariana (que debatia a Divindade do Filho), os hereges queriam incutir o arianismo através de hinos religioso, ao que Sto. Ambrósio opôs os hinos ambrosianos(...)
Mais ainda: nos séculos XVII-XIX o Galicanismo propugnava a existência de Igrejas nacionais subordinadas não ao Papa, mas ao monarca. Em consequência foi criado o calendário galicano, no qual estava inserida a festa de São Napoleão, que podia ser entendido como um mártir da Igreja antiga ou como sendo o Imperador Napoleão.
Pois bem, os protestantes têm seus cantos religiosos cuja letra exprime a fé protestante. O católico que utiliza esses cânticos, não pode deixar de assimilar aos poucos a mentalidade protestante; esta é, em certos casos, mais subjetiva e sentimental do que a católica.
2) Os cantos protestantes ignoram verdades centrais do Cristianismo: A Eucaristia, a Comunhão dos Santos, a Igreja Mãe e Mestre… Esses temas não podem faltar numa autêntica espiritualidade cristã.
3) Deve-se estimular a produção de cânticos com base na doutrina da fé.
Não podemos deixar de reconhecer a beleza de algumas canções de cunho "gospel", porém, não há necessidade alguma de recorrermos a elas se podemos fazer uso de nossas próprias composições, prestigiando nossos artistas e bandas católicas. Temos um leque amplo de bandas e cantores católicos para todos os estilos e gostos, da mais requintada à mais popular, do forró ao rock, do gregoriano ao axé, abordando os mais diversos temas e questões relativas a fé cristã. Graças a Deus a música católica cresceu muito, e precisamos valorizar o que é nosso, sabendo que não estamos valorizando apenas o artista, mais a nossa fé, a nossa doutrina, a Igreja verdadeiramente fundada pelo Senhor.
É importante ressaltar que os protestantes, em sua maioria, dificilmente utilizariam uma música católica em um culto ou em qualquer atividade evangelizadora. Infelizmente, o relativismo doutrinal de alguns católicos, bem como a falta de disciplina na vivência da fé, ocasionam erros gravíssimos e um distanciamento significativo entre a teoria e a prática, a fé proclamada e a fé vivida.
Que Deus nos dê uma consciência cristã mais crítica e sabedoria para discernir o caminho correto a seguir.
SANTA CATARINA: LEIGA E DOUTORA DA IGREJA
Catarina de Siena (25 de Março 1347 - 29 de Abril 1380) foi uma leiga da Ordem Terceira de São Domingos, venerada como Santa Catarina na Igreja Católica. Catarina de Siena foi ainda uma personagem influente no Grande Cisma do Ocidente.Catarina nasceu em Siena, Itália no dia 25 de março do ano 1347, sendo a 24ª filha de um tintureiro chamado Giacomo di Benincasa. Os seus pais eram burgueses comerciantes, com forte sentido religioso e familiar, próprio do seu tempo(...)
Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade a Cristo e aos 15 ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Catarina encarou a sua clausura com seriedade e vivia encerrada no seu próprio quarto, onde, por intermédio da oração e diálogo afirmava que estava sempre com e em Cristo. Os jejuns a que se submetia são considerados por alguns autores como um dos primeiros exemplos de anorexia nervosa. Catarina abandonou a sua cela somente em 1374, quando a peste se alastrou por toda a Europa e ela decidiu cuidar dos enfermos e abandonados, tendo particado grandes atos de caridade.
No ano 1376, quando toda a Itália estava envolvida em graves disputas políticas à volta do papado, organizaram-se nas cidades de Peruggia, Florença, Pisa e em toda a Toscânia milícias e revoltas contra contra o poder político do Papa Gregório XI. Catarina decidiu seguir até Avinhão, cidade onde os papas viviam desde há mais de 70 anos, e apresentar-se diante do mesmo para o convencer a regressar a Roma, pois que tal seria fundamental para a unidade da Igreja e pacificação da Itália. Tendo obtido esse grande sucesso em 1378, voltou para sua cidade, onde adoeceu e faleceu em 29 de Abril de 1380, dia em que se comemora a sua memória litúrgica. Tal sucesso foi no entanto de pouca duração, pois que a eleição seguinte tornou a mergulhar a cristandade em nova divisão: o Grande Cisma do Ocidente.
Embora analfabeta, Catarina ditou mais de 300 cartas endereçadas a todo o tipo de pessoas, desde papas, aos reis e líderes, como também ao povo humilde, onde lutava pela unificação da Igreja e a pacificação dos Estados Papais. Uma das suas obras ditadas, Diálogo sobre a Divina Providência, é um livro ainda hoje considerado um dos maiores testemunhos do misticismo cristão e uma exposição clara de suas ideias teológicas e de sua mística. Em 1970, o Papa Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a única leiga a obter esta distinção. O Papa João Paulo II declarou-a co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Teresa Benedita da Cruz.
ROMARIA NO MARANHÃO EM DEFESA DA "TERRA E DAS ÁGUAS"
Nos dias 5 e 6 de setembro, acontece no estado do Maranhão, a X Romaria da Terra e das Águas. O evento será sediado na diocese de Coroatá, com o tema “Terra e Águas: um clamor de justiça” e lema “Lutar contra a morte da Terra e das Águas é defender a Vida” (cf. Dt 30, 15-20)(...) A Romaria pretende dar visibilidade aos sofrimentos, às resistências e às lutas dos indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos e lavradores, por meio de testemunhos das mulheres e homens do campo e da floresta, além de fortalecer a organização dos movimentos sociais de luta pela Reforma Agrária e por políticas públicas que respondam às necessidades de direitos das nações indígenas e dos camponeses.
Segundo os organizadores, as motivações do evento são “provocados pelo gemido da terra e das águas do Cerrado e da Amazônia Maranhense, o grito das nações indígenas e o clamor das famílias camponesas, expulsas e despejadas pelo latifúndio e pelo Estado; cerceadas pelo deserto verde da soja, do eucalipto e da cana; obrigadas a cair na malha do trabalho assalariado super explorado; escravizadas nas fazendas e nas carvoarias”.
De acordo com a Pastoral da Terra, uma das metas da Romaria, é “reafirmar o compromisso com a luta pela permanência e convivência na terra, buscando reconstruir a relação fraterna com a natureza, por meio da agroecologia e da busca de fontes alternativas de energia”.
A organização do evento explica ainda, que a Romaria objetiva também responsabilizar quem atenta contra a vida e a natureza. “Queremos responsabilizar as grandes empresas do agronegócio, da mineração, da siderurgia e das hidroelétricas, pelos atentados à vida dos biomas e dos povos do Maranhão, perpetrados em nome do lucro e de uma concepção tragicamente equivocada do desenvolvimento; responsabilizar os poderes do Estado (Executivo; Legislativo; Judiciário) pela subserviência à hegemonia do grande capital, em detrimento do serviço à justiça e ao bem comum”, completa.
Carta-convite
O bispo da diocese de Coroatá, dom Reinaldo Pünder, escreveu uma carta-convite para a população do Maranhão. Com o tema “Terra e Águas: Um clamor de justiça”, o bispo afirma que terá a alegria de receber em sua diocese todos aqueles que desejam participar da Romaria No texto, ele lembra ainda que a diocese de Coroatá recebeu a 1ª Romaria da Terra e das Águas do maranhão, na cidade de Vargem Grande e explica também os motivos para escolha da diocese para acolher a 10ª edição do evento. “Um dos motivos dessa escolha é o triste e preocupante fato de, especialmente, também a nossa diocese ter voltado a ser palco de um número nunca mais visto de conflitos de terra, esta diocese que nos seus trinta anos de existência perdeu por morte violenta 27 (vinte e sete) dos seus membros como mártires desses conflitos”.
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CONHEÇA UM POUCO MAIS SOBRE A CARTA AOS FILIPENSES
1. A história da cidade de FiliposO primeiro nome da antiga vila era Krenides ou “cidade das fontes”, por causa das fontes de água que brotavam no local. Tinha sido fundada pelos habitantes da ilha de Tasos, a 12 km do mar sobre uma colina de onde se vislumbrava uma vasta planície muito fértil. Seu porto natural era a vila de Neápolis, hoje chamada Cavalla(...)
Em 358-357 a.C., ameaçados pelos trácios, os habitantes de Krenides, pediram auxílio ao rei da Macedônia, Felipe II, pai de Alexandre Magno. Este veio em sua ajuda e mudou o nome da vila para Filipos em honra de seu pai Felipe I, rei da Macedônia. Felipe II fortificou e aumentou a nova cidade.
Filipos ocupava um ponto estratégico, pois dominava todas as rotas de caravanas da Grécia e da Trácia. Por ela passava a importante via Egnátia, que unia a Itália à Ásia Menor. Nas montanhas vizinhas foram descobertas ricas jazidas de ouro e prata. Tudo isso contribuiu para o enriquecimento da cidade.
No ano 168 a.C., Filipos foi conquistada pelos romanos. Esta ficava cerca de 1100 km de Roma.
Foi na sua planície que em 42 a.C., Otávio e Marco Antônio, herdeiros de César derrotaram Cassius e Brutus, os últimos defensores da república. Quando César Augusto se tornou imperador romano estabeleceu uma colônia de veteranos soldados romanos em Filipos e lhe deu o nome de “Colonia Augusta Julia Philippensium”.
Concedeu-lhe, também, o privilégio de “Jus Italicum” com a qual seus habitantes eram cidadãos romanos. Sua população era formada por trácios, macedônios e em grande parte por romanos.
Após a batalha de Actio, na qual Otávio venceu Marco Antônio, novos veteranos foram enviados a Filipos. A cidade de Filipos perdeu a primazia para Tessalônica que tornou-se a capital da Província Romana da Macedônia. Porém, Filipos manteve seus privilégios e era administrada por Roma. Filipos tinha direitos de colônia romana (At 16,12).
Na época de Paulo, a cidade estava em declínio, pois as minas de ouro e prata estavam esgotadas. Havia, na cidade, uma colônia judia muito pequena, pois não possuíam sinagoga. Na cidade havia, além dos cultos locais trácios e macedônios, culto ao imperador romano, coexistindo com outras religiões vindas do Oriente, chamadas religiões mistéricas.
2. A comunidade de Filipos
Filipos, assim como Tessalônica e Beréa, foram evangelizadas por Paulo, na sua segunda viagem missionária (At 15,36–18,22). Paulo, Silas, Timóteo e Lucas chegaram a Filipos em 50/51 vindos de Trôade. Desembarcaram em Neápolis, porto distante 12 km da cidade. Filipos foi a primeira cidade da Europa a ser evangelizada.
Em At 16,6-10, Lucas procura mostrar como essa missão é guiada pelo Espírito. Como não havia sinagoga na cidade, Paulo e seus companheiros, no sábado, foram para fora da cidade, às margens de um rio, onde provavelmente os judeus costumavam rezar (At 16,13). As primeiras conversões aconteceram entre as mulheres. A mais conhecida é Lídia, era uma comerciante de púrpura, natural de Tiatira, na Ásia Menor, que foi batizada por Paulo com toda a sua família (At 16,14-15). Foi Lídia quem hospedou Paulo e seu grupo. A nova Igreja devia contar com poucos judeus. Era formada, sobretudo, por gentios e as mulheres, parecem ter ocupado um lugar importantes nela.
Não sabemos quanto tempo Paulo permaneceu em Filipos. Podemos supor uma estadia de alguns meses. Sua permanência na cidade foi tumultuada pela libertação de uma jovem escrava que possuía um espírito de adivinhação (At 16,16ss). Os donos da escrava, que obtinham lucros com suas adivinhações, se sentiram lesados e denunciaram Paulo e Silas aos magistrados. Ambos foram presos, açoitados e colocados na prisão. Esta é a primeira prisão do Apóstolo.
À noite, um violento terremoto sacudiu a prisão e libertou os prisioneiros. O carcereiro tentou o suicídio, julgando que os prisioneiros haviam fugido. Impedido por Paulo, se converteu e foi batizado com toda a sua família (At 16,24-34). No dia seguinte, sabendo que Paulo não podia ser flagelado nem preso, pois era cidadão romano, os magistrados o libertaram com Silas e rogaram para que deixassem a cidade (At 16,35-40).
Paulo partiu de Filipos em direção de Tessalônica com Silas e Timóteo. Lucas ficou na cidade. Paulo o reencontrou ali na sua segunda visita a Filipos (At 20,5-6). Alguns autores pensam que Lucas era originário de Filipos.
Ao partir, Paulo deixou uma jovem e dinâmica comunidade, que continuou a crescer e prosperar e que se manteve fiel ao Evangelho. O Apóstolo se identificou muito com essa comunidade. Ele a chamou de “minha alegria e minha coroa” (Fl 4,1).
Numa cidade onde havia o culto ao Imperador, que se fazia passar por “Deus e Senhor”, Paulo anuncia o Evangelho que se torna Boa Notícia. É em “nome de Jesus” que vem a libertação. Nome que está acima de qualquer outro nome e em nome do qual se dobre todo joelho (cf. Fl 2,8-11).
Paulo esteve, ainda outras vezes em Filipos. Foi ali provavelmente que durante sua terceira viagem missionária, pelo ano de 58, vindo de Éfeso, Paulo escreveu a Segunda Carta aos Coríntios. Na primavera do ano seguinte, voltando de Corinto, Paulo celebrou a Páscoa em Filipos (At 20,5ss). Em Fl 1,26 e 2,24 Paulo manifesta o desejo de retornar à cidade. Esse desejo deve ter sido realizado após sua primeira prisão em Roma.
Muitas vezes, os filipenses enviaram auxílio para Paulo: em Tessalônica (Fl 4,16), em Corinto (2Cor 11,9) e durante sua prisão (Fl 4,18) em Éfeso ou Roma.
3. Texto Bíblico: At 16,11-15:
“11 Embarcamos em Trôade e navegamos diretamente para a ilha de Samotrácia. No dia seguinte, ancoramos em Neápolis, 12 de onde passamos para Filipos, que é uma das principais cidades da Macedônia, e que tem direitos de colônia romana. Passamos alguns dias nessa cidade. 13 No sábado, saímos além da porta da cidade para um lugar junto ao rio, onde nos parecia haver oração. Sentamo-nos e começamos a falar com as mulheres que estavam aí reunidas. 14 Uma delas se chamava Lídia; era comerciante de púrpura, da cidade de Tiatira. Lídia acreditava em
Deus e escutava com atenção. O Senhor abrira o seu coração para que aderisse às palavras de Paulo. 15 Após ter sido batizada, assim como toda a sua família, ela nos convidou: "Se vocês me consideram fiel ao Senhor, permaneçam em minha casa." E nos forçou a aceitar.”
4. Mensagens (da Comunidade e da Carta)
a) At 16-18 quer mostrar que duas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus, a Boa Notícia está chegando a outros continentes. Os quatro Evangelhos ainda não haviam sido escritos. Para Paulo, o Evangelho é uma pessoa concreta: Jesus Cristo!
b) Quem anuncia a Palavra corre o risco de ser perseguido e preso. Mas o Evangelho não se deixa acorrentar. E mesmo o conflito pode ser motivo de crescimento da mensagem (conversão e batismo do carcereiro e sua família). Paulo sabe que o martírio pode acontecer e está disposto a recebê-lo. Isso significa ir logo para junto de Deus, mas por causa da comunidade, ele acha que é mais importante continuar a viver (Cf. 1,21-26).
c) Filipos era uma das principais cidades de Macedônia (At 16,12). Isso significa que o Evangelho está entrando nos centros urbanos; que está se encarnando na cultura das grandes cidades.
d) A Carta aos Filipenses nos mostra que Paulo já vê a necessidade de organizar as comunidades. Elas têm os epíscopos e diáconos.
e) A ausência da sinagoga mostra que a comunidade pode nascer independente dos judeus. É a abertura aos outros povos.
f) Outro fator importante é a presença e a participação das mulheres na Igreja nascente. É numa casa delas que a Igreja se reúne. A carta fala ainda de outras duas (Evódia e Síntique), ainda que estejam em conflito, Paulo lembra que elas o ajudaram muito na luta pelo Evangelho.
g) Na carta temos um importante hino cristológico. Talvez já existisse e que fosse cantado nas celebrações e Paulo o tenha inserido na Carta. Este hino é a síntese do Evangelho que ele anuncia. O hino tem dois movimentos: 1. Descendente. É Jesus que se esvazia, se tornou humano, humilhou-se, foi obediente, servo e desce ao mais profundo da condição humana, e termina na cruz (cf. Is 52,13–53,8). Jesus é sujeito da sua ação... 2. Ascendente. Deus é sujeito e exalta Jesus, ressuscitando-o e colocando-o no posto mais elevado que possa existir. Jesus é Senhor do Universo e da história (cf. Is 52,13-15; 53,10-12).
h) Paulo também se encarnou. De hebreu, circuncidado, fariseu, perseguidor da Igreja, observador da lei, sem reprovação (cf. 3,5-6), por causa de Cristo, Paulo perde tudo, abandona a Lei e através da fé busca a justiça (cf. 3,7-9). Também ele se esvaziou: “Considero tudo uma perda” (3,8). Também ele se considera um servo (1,1).
i) Em meio a tantas opções de religiões, os filipenses escolhem seguir Jesus Cristo, alguém que morreu na cruz. Paulo também sofre a perseguição. A comunidade também enfrenta as dificuldades, mas continua carregando a sua cruz.
j) A comunidade de Filipos compreendeu bem o que é a mensagem de Jesus Cristo. Ser cristão é ser solidário, partilhar, repartir... É isso que a comunidade fez(4,10-20). Comunidade solidária com as necessidades do Apóstolo e com o sofrimento na doença de Epafrodito. Também Paulo faz isso, se for preciso vive na necessidade e sofre as privações... Mas isso não é problema, porque “Tudo posso nAquele que me fortalece!” (4,13).
l) A Carta mostra também como a missão evangelizadora é uma tarefa comunitária. Basta ver o nome das pessoas envolvidas (Paulo, Timóteo, Silas, Epafrodito, Lídia, Sízigo, Clemente, Evódia, Síntique, os cristãos da casa do Imperador, os epíscopos e diáconos...).
m) A comunidade deve se preocupar e defender-se dos “cães” e dos falsos operários. Aqueles que querem dividir, que querem anunciar um outro evangelho.
Diante desses, Paulo reage com dureza. O Apóstolo se mostra contrário aos “judaizantes” que querem que os pagãos façam a circuncisão, do contrário serão impuros (cf. 3,2-3). Mas também são perigosos aqueles que querem um evangelho fácil, sem a cruz (cf. 3,18).
n) A carta nos mostra o lado carinhoso e da ternura. É muito interessante ver como algumas palavras bonitas aparecem no texto: alegria, ternura, coração... Os filipenses estão “em seu coração” (1,7); são seus “amados” (2,12); “queridos e saudosos irmãos” (4,1). E também é uma Carta onde surgem algumas das frases mais belas da Bíblia: “Deus é testemunha de que eu quero bem a todos vocês com a ternura de Jesus Cristo” (1,8); “Tudo posso nAquele que me fortalece!” (4,13); “Alegrai-vos sempre no Senhor!” (4,4); “Permanecei firmes no Senhor!” (4,1); etc.
o) A Carta é quase uma oração, uma celebração, uma eterna ação de graças que o Apóstolo parece rezar enquanto escreve. Isso nos mostra o lado místico de Paulo e também a importância da oração e da vida espiritual das nossas comunidades hoje.
p) Os cristãos devem se modelar no exemplo de Cristo que se humilhou e por isso foi exaltado. O cristão deve viver em comunhão fraterna, fruto do amor e da renúncia aos próprios interesses, vivendo no meio de uma sociedade perversa e má (2,12-16). Eles devem imitar o comportamento de Paulo e dos demais evangelizadores (3,12-17).
q) Quem segue a Cristo, mesmo em meio a dificuldades, vive a alegria (3,1; 4,4). Colocando em prática tudo aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor, o Deus da paz verdadeiramente estará com eles (4,8-9).
r) Os cristãos devem viver com esperança: esperar pelo dia glorioso de Cristo (1,10); esperar pela ressurreição (3,11), esperar pela pátria celeste (3,20). É certo que Paulo pensa ao momento da morte individual de cada um, mas também fica vivo o pano de fundo de uma esperança numa escatologia cósmica, que assinalará a transformação de todo o mundo segundo o plano de Deus.
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Deus e escutava com atenção. O Senhor abrira o seu coração para que aderisse às palavras de Paulo. 15 Após ter sido batizada, assim como toda a sua família, ela nos convidou: "Se vocês me consideram fiel ao Senhor, permaneçam em minha casa." E nos forçou a aceitar.”
4. Mensagens (da Comunidade e da Carta)
a) At 16-18 quer mostrar que duas décadas depois da morte e ressurreição de Jesus, a Boa Notícia está chegando a outros continentes. Os quatro Evangelhos ainda não haviam sido escritos. Para Paulo, o Evangelho é uma pessoa concreta: Jesus Cristo!
b) Quem anuncia a Palavra corre o risco de ser perseguido e preso. Mas o Evangelho não se deixa acorrentar. E mesmo o conflito pode ser motivo de crescimento da mensagem (conversão e batismo do carcereiro e sua família). Paulo sabe que o martírio pode acontecer e está disposto a recebê-lo. Isso significa ir logo para junto de Deus, mas por causa da comunidade, ele acha que é mais importante continuar a viver (Cf. 1,21-26).
c) Filipos era uma das principais cidades de Macedônia (At 16,12). Isso significa que o Evangelho está entrando nos centros urbanos; que está se encarnando na cultura das grandes cidades.
d) A Carta aos Filipenses nos mostra que Paulo já vê a necessidade de organizar as comunidades. Elas têm os epíscopos e diáconos.
e) A ausência da sinagoga mostra que a comunidade pode nascer independente dos judeus. É a abertura aos outros povos.
f) Outro fator importante é a presença e a participação das mulheres na Igreja nascente. É numa casa delas que a Igreja se reúne. A carta fala ainda de outras duas (Evódia e Síntique), ainda que estejam em conflito, Paulo lembra que elas o ajudaram muito na luta pelo Evangelho.
g) Na carta temos um importante hino cristológico. Talvez já existisse e que fosse cantado nas celebrações e Paulo o tenha inserido na Carta. Este hino é a síntese do Evangelho que ele anuncia. O hino tem dois movimentos: 1. Descendente. É Jesus que se esvazia, se tornou humano, humilhou-se, foi obediente, servo e desce ao mais profundo da condição humana, e termina na cruz (cf. Is 52,13–53,8). Jesus é sujeito da sua ação... 2. Ascendente. Deus é sujeito e exalta Jesus, ressuscitando-o e colocando-o no posto mais elevado que possa existir. Jesus é Senhor do Universo e da história (cf. Is 52,13-15; 53,10-12).
h) Paulo também se encarnou. De hebreu, circuncidado, fariseu, perseguidor da Igreja, observador da lei, sem reprovação (cf. 3,5-6), por causa de Cristo, Paulo perde tudo, abandona a Lei e através da fé busca a justiça (cf. 3,7-9). Também ele se esvaziou: “Considero tudo uma perda” (3,8). Também ele se considera um servo (1,1).
i) Em meio a tantas opções de religiões, os filipenses escolhem seguir Jesus Cristo, alguém que morreu na cruz. Paulo também sofre a perseguição. A comunidade também enfrenta as dificuldades, mas continua carregando a sua cruz.
j) A comunidade de Filipos compreendeu bem o que é a mensagem de Jesus Cristo. Ser cristão é ser solidário, partilhar, repartir... É isso que a comunidade fez(4,10-20). Comunidade solidária com as necessidades do Apóstolo e com o sofrimento na doença de Epafrodito. Também Paulo faz isso, se for preciso vive na necessidade e sofre as privações... Mas isso não é problema, porque “Tudo posso nAquele que me fortalece!” (4,13).
l) A Carta mostra também como a missão evangelizadora é uma tarefa comunitária. Basta ver o nome das pessoas envolvidas (Paulo, Timóteo, Silas, Epafrodito, Lídia, Sízigo, Clemente, Evódia, Síntique, os cristãos da casa do Imperador, os epíscopos e diáconos...).
m) A comunidade deve se preocupar e defender-se dos “cães” e dos falsos operários. Aqueles que querem dividir, que querem anunciar um outro evangelho.
Diante desses, Paulo reage com dureza. O Apóstolo se mostra contrário aos “judaizantes” que querem que os pagãos façam a circuncisão, do contrário serão impuros (cf. 3,2-3). Mas também são perigosos aqueles que querem um evangelho fácil, sem a cruz (cf. 3,18).
n) A carta nos mostra o lado carinhoso e da ternura. É muito interessante ver como algumas palavras bonitas aparecem no texto: alegria, ternura, coração... Os filipenses estão “em seu coração” (1,7); são seus “amados” (2,12); “queridos e saudosos irmãos” (4,1). E também é uma Carta onde surgem algumas das frases mais belas da Bíblia: “Deus é testemunha de que eu quero bem a todos vocês com a ternura de Jesus Cristo” (1,8); “Tudo posso nAquele que me fortalece!” (4,13); “Alegrai-vos sempre no Senhor!” (4,4); “Permanecei firmes no Senhor!” (4,1); etc.
o) A Carta é quase uma oração, uma celebração, uma eterna ação de graças que o Apóstolo parece rezar enquanto escreve. Isso nos mostra o lado místico de Paulo e também a importância da oração e da vida espiritual das nossas comunidades hoje.
p) Os cristãos devem se modelar no exemplo de Cristo que se humilhou e por isso foi exaltado. O cristão deve viver em comunhão fraterna, fruto do amor e da renúncia aos próprios interesses, vivendo no meio de uma sociedade perversa e má (2,12-16). Eles devem imitar o comportamento de Paulo e dos demais evangelizadores (3,12-17).
q) Quem segue a Cristo, mesmo em meio a dificuldades, vive a alegria (3,1; 4,4). Colocando em prática tudo aquilo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor, o Deus da paz verdadeiramente estará com eles (4,8-9).
r) Os cristãos devem viver com esperança: esperar pelo dia glorioso de Cristo (1,10); esperar pela ressurreição (3,11), esperar pela pátria celeste (3,20). É certo que Paulo pensa ao momento da morte individual de cada um, mas também fica vivo o pano de fundo de uma esperança numa escatologia cósmica, que assinalará a transformação de todo o mundo segundo o plano de Deus.
FORMAÇÃO CATÓLICA: PRA QUÊ?
O Brasil já foi referido muitas vezes como o maior país católico do mundo. Uma conhecida pesquisa mostrou recentemente que cerca de 74% da população brasileira se declara católica.Mas quantos destes conhecem realmente a doutrina católica?(...)
Quantos destes procuram viver de acordo com os mandamentos de Deus e os preceitos da Santa Igreja?
E talvez não procurem viver assim porque nem conheçam a doutrina católica…
A situação torna-se mais complicada ainda quando presenciamos instituições que se denominam católicas e mesmo parte do clero defendendo ideias contrárias à doutrina católica.
Com efeito, o saudoso Papa João Paulo II, na sua fabulosa Encíclica Veritatis Splendor (1993), mostrou grande preocupação em relação à ideias contrárias à doutrina católica sendo defendidas em seminários (n. 4), escolas, universidades e outras instituições que se denominam católicas (n.116).
A importância de se conhecer a fé e a moral católica, em uma formação consistente, é muitas vezes negligenciada pelos próprios católicos, ignorando que:
A fé NÃO é um sentimento, e sim uma adesão à um conjunto de verdades que são apreendidas intelectualmente (Catecismo da Igreja Católica, 155)
Muitos deixam de ser católicos por terem conhecido pouco os fundamentos da fé católica, e acabam aderindo ao protestantismo, ao espiritismo, ao ateísmo, ao agnosticismo, ao indiferentismo religioso, ao relativismo, ao socialismo ou outras doutrinas incompatíveis com a fé católica
A vida moral é condição necessária para a salvação; embora muitos possam se salvar na ignorância invencível, através da busca sincera da verdade e da vivência da lei natural, existe também um tipo de ignorância que é culposa, quando não se procura suficientemente a verdade e o bem (Catecismo da Igreja Católica, 1790-1791)
A vida moral é condição necessária para a plena realização humana e a justa ordem social (se a Lei Divina fosse observada, não haveria homicídios voluntários, roubos, assaltos, estupros, drogas, corrupção, adultérios, abortos, invasões de terras, governos totalitários, nacionalismos desordenados, etc)
Pouco se ama o que pouco se conhece, muito se ama o que muito se conhece. Conhecendo a doutrina católica, mais se ama a Deus, as Suas Obras e a Sua Santa Igreja, mais se deseja realizar a Sua Vontade, mais se deseja o Céu.
É impossível realizar um apostolado eficaz e dialogar com quem pensa diferente, sem conhecer a doutrina católica. Já dizia São Josemaria Escrivá: “Para o apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração”.
Já dizia Nosso Senhor Jesus Cristo: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.” (Jo 8, 32)
Em tudo isso vemos que não basta, então, ter uma vida espiritual; é preciso também o conhecimento de um conjunto de verdades necessárias para dar a direção adequada a esta vida espiritual.
É como um barco à vela: não basta que ele se mova, mas é preciso se mover para a direção certa.
Para combater, portanto, um relativismo doutrinal “politicamente correto” que muitas vezes é ensinado, em 1992 o saudoso Papa João Paulo II determinou a publicação do “Catecismo da Igreja Católica”, contendo um resumo oficial da doutrina católica. Pela sede que o ser humano naturalmente tem de conhecer à Deus e Sua Verdade, o Catecismo tem se difundido cada vez mais. Mas infelizmente, muitos católicos ainda não tem contato com ele.
Muitos falam da necessidade de conhecer-se a Bíblia, mas ignoram o fato que a Bíblia NÃO contém toda a Verdade Revelada por Deus (há ainda a Tradição Apostólica), e só pode ser autenticamente interpretada pelo Sagrado Magistério da Igreja, que nos transmite a Escritura (a Bíblia) e a Tradição. Diz o Concilio Vaticano II: “O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo.” (Dei Verbum, n. 10)
Sem a autoridade do Magistério, portanto, a Bíblia como temos hoje nem existiria, pois foi o próprio Magistério quem definiu os livros que deveriam fazer parte da Sagrada Escritura (os chamados “canônicos”) e quais não deveriam (os chamados “apócrifos”), no pontificado do Papa São Dâmaso, próximo ao Concílio de Éfeso (século IV). A Bíblia sem o Magistério da Igreja é perigosa, pois pode levar à interpretações equivocadas e com péssimas conseqüências em todos os sentidos.
Assim, é fundamental que cada católico tenha à mão um Catecismo, tanto para um estudo sistemático, como para ser fonte de consulta quando houver necessidade.
GRITO DOS EXCLUÍDOS 2009: A MUDANÇA NO PAÍS DEVE VIR DA POPULAÇÃO
"A força da transformação está na organização popular". É com este lema que milhares de pessoas em todo o território brasileiro irão às ruas, no próximo dia 7 de setembro, para gritar por um mundo melhor e mais igualitário. O Grito dos Excluídos, que acontece todos os anos desde 1995, tornou-se o símbolo da luta dos povos contra o sistema capitalista e as formas de exclusão e exploração social.De acordo com Luiz Bassegio, membro da secretaria do Grito dos Excluídos Continental, neste ano, os grupos já estão se organizando e trabalhando em torno da temática. Segundo ele, a mobilização será centrada em torno da questão da crise econômica mundial(...)
"Os trabalhadores não vão pagar a conta dessa crise", afirma. Dessa forma, no Dia da Independência do Brasil, o Grito soma-se às várias manifestações e jornadas de lutas que trabalhadores e trabalhadoras vêm promovendo ao longo do ano.
Assim, além de protestarem contra o desemprego e a ameaça dos direitos sociais, também estarão na pauta da mobilização: a luta pela reforma agrária e urbana, pelo rebaixamento da taxa de juros e do superávit primário, pela democratização da comunicação e pela definição de um novo marco regulatório para o pré-Sal.
Para Bassegio, a ideia é que as mudanças no país sejam realizadas pela própria população brasileira. "O projeto de país deve vir da base. O povo é que deve dizer [que país quer], comenta. Segundo ele, o projeto de um novo País deve ser popular, alternativo, anti-imperialista e sustentável.
Na 15ª edição, o Grito dos Excluídos já conseguiu grandes avanços, pois dá visibilidade à população que vive à margem da sociedade. Prova disso é que a mobilização vem aumentando a cada ano. De acordo com Bassegio, em 2008, o Grito brasileiro aconteceu em aproximadamente mil lugares diferentes. Segundo ele, essa é a única mobilização do mundo que acontece em vários lugares ao mesmo tempo e com as mesmas reivindicações.
Para o secretário, o que fez a mobilização dar certo foi o fato de ela ter começado na base da sociedade. "Quem fala no Grito são os próprios excluídos", destaca. Na ocasião, o que vale é simbolismo, pois, além das palavras ditas, há um Grito simbólico e silencioso dos participantes que, na maioria das vezes, não são escutados.
Grito Continental
O crescimento do Grito dos Excluídos no Brasil foi tanto que, em 1999, ele se estendeu a outros países do continente. Bassegio comenta que, hoje, a mobilização ocorre em mais de 20 países. Neste ano, o Grito dos Excluídos Continental, que acontece no dia12 de outubro, tem como lema "Trabalho, justiça e vida".
O Grito dos Excluídos Continental, além de combater o sistema capitalista e as formas de exclusão, luta pela redistribuição das riquezas, pela defesa ambiental e pela integração dos povos latino-americanos. Ademais, nesta 11ª edição, a mobilização soma-se à "Jornada Mundial em defesa da Mãe Terra, contra o neocolonialismo e a mercantilização da Vida", convocada durante o Fórum Social Mundial 2009 para acontecer também no 12 de outubro.
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O crescimento do Grito dos Excluídos no Brasil foi tanto que, em 1999, ele se estendeu a outros países do continente. Bassegio comenta que, hoje, a mobilização ocorre em mais de 20 países. Neste ano, o Grito dos Excluídos Continental, que acontece no dia12 de outubro, tem como lema "Trabalho, justiça e vida".
O Grito dos Excluídos Continental, além de combater o sistema capitalista e as formas de exclusão, luta pela redistribuição das riquezas, pela defesa ambiental e pela integração dos povos latino-americanos. Ademais, nesta 11ª edição, a mobilização soma-se à "Jornada Mundial em defesa da Mãe Terra, contra o neocolonialismo e a mercantilização da Vida", convocada durante o Fórum Social Mundial 2009 para acontecer também no 12 de outubro.
A VOCAÇÃO DA FILOSOFIA
A filosofia já conta com mais de 2500 anos de história. Essa longa trajetória é já uma insígnia de que se orgulhar. E, apesar de tão longa existência, são muitos os que ainda se perguntam sobre o sentido e o valor da filosofia.Na verdade, não é nada fácil definir a filosofia. Em geral, cada escola ou corrente filosófica trata de dar a sua definição, de acordo com a visão que tem de seu alcance. Hoje em dia, infelizmente, não são poucos os que acham que a hora da filosofia já passou, e que as diversas ciências tomaram o seu lugar(...) Nesse sentido, a filosofia seria um saber por demais especulativo, uma construção mental apenas, alicerçada não raro no vazio; um saber deficiente, cuja imprecisão viriam as ciências a corrigir com sua metodologia caracterizada pelo controle da verificação empírica.
Entretanto, cabe-nos perguntar: O domínio do que se pode saber reduz-se apenas ao que se pode constatar empiricamente? O homem estaria condenado a lidar apenas com os fenômenos, sem poder lançar o olhar para cima, para o que não se vê com os olhos da carne?
Platão (427-347 a.C.), um dos maiores filosófos da Antiguidade e de todos os tempos, não cessava de defender a dimensão metafísica da filosofia. Para Platão, assim como para muitos depois dele, a vocação da filosofia é fazer o homem alçar vôo em busca de um conhecimento mais profundo, um saber que se alcança com os olhos do espírito, e que, por atingir o Princípio de todas as coisas, ilumina de modo novo e enche de sentido os fenômenos com os quais lidamos.
O homem contemporâneo está profundamente marcado pela cultura da ciência e de sua aplicação prática, que é a técnica. Fala-se mesmo de tecnocracia, ou seja, de imperialismo da técnica. Em muitos casos, o homem torna-se escravo de sua própria invenção. Certamente a ciência e a técnica muito têm contribuído para o desenvolvimento humano, e disso todos somos testemunhas. Por outro lado, porém, sabemos que, com as novas tecnologias, as possibilidades para o mal aumentaram assustadoramente. Na verdade, o progresso técnico-científico é ambíguo, pois, visto sob certo ângulo, pode ser o progresso da funda à superbomba como bem o notou Theodor Adorno. Para que seja legítimas e humanitárias, as novas descobertas e possibilidades abertas pela ciência devem-se deixar guiar por uma outra luz, que não pode vir das próprias ciências. Devem-se deixar guiar pelo bem, que não é do domínio do que é (dos fatos), mas do que deve ser (ética).
Aqui, a meu ver, entra o papel insubstituível da filosofia. Ela, sim, é capaz de fazer com que o homem veja para além dos fenômenos e seja capaz de alcançar o sentido básico da existência. Nesse sentido dizia o Papa João Paulo II em 1998: "Em toda a parte em que o homem descobre um apelo ao absoluto e ao transcendente, lá se abre um fresta para a dimensão metafísica do real: na verdade, na beleza, nos valores morais, na pessoa do outro, no ser, em Deus. Um grande desafio, que nos espera no final deste milênio, é saber realizar a passagem, tão necessária como urgente, do fenômeno ao fundamento" (Encíclica Fides et Ratio, n. 83).
Existem verdades perenemente válidas - a dignidade ímpar de cada ser humano; o fato da liberdade humana, que precisa exercer-se com responsabilidade; a existência do Ser Absoluto, que é Inteligência e Amor, e que está à frente do Universo como Criador e Senhor; o Bem como regra e, ao mesmo tempo, meta de toda nossa ação moral, etc. - de que a filosofia pode e deve tratar. Tudo isso é capaz de conferir sentido à nossa vida e encher de alegria nossa alma. A cultura atual, com efeito, necessita urgentemente de um suplemento de espírito.
FONTE: http://www.catequisar.com.br/texto/colunas/elilio/04.htm
Leia mais >>CATEQUISTAS: O FUTURO DA IGREJA PASSA POR ELES
Se eu tivesse de dar uma medalha de ouro para alguém na Igreja, seria para o Catequista. Hoje é o que mais precisamos na Igreja: bons cristãos, bem preparados, conhecedores da doutrina católica, que formem as crianças, os jovens, e mesmo os adultos, na verdadeira religião. Infelizmente, a maioria dos nossos jovens já não conhece os Mandamentos, os Sacramentos, a Liturgia, e as coisas básicas da nossa fé, porque não foram catequizados(...) Por isso, no Jubileu do ano 2000 o saudoso Papa João Paulo II pediu à Igreja uma “Nova Evangelização”, com “novos métodos, novo ardor e nova expressão”, a fim de reavivar a fé do povo católico e também de trazer de volta para a Igreja aquelas ovelhas desgarradas que as seitas levaram embora.
Muitos filhos da Igreja foram levados para seitas porque não conheciam a doutrina católica nem mesmo na sua fundamentação básica; foram enganados pelos “falsos pastores”; Jesus avisou que estes viriam como cordeiros, mas que, na verdade, eram lobos ferozes (cf. Mateus 7,15). E isso acontece porque esse bom povo católico não foi evangelizado, especialmente não foi catequizado nem pelos pais nem pela Igreja.
Nos últimos decênios a catequese diminuiu muito; em primeiro lugar por conta da crise da família provocada pelo divórcio, pela falta de formação dos pais e por tantos outros fatores. Antigamente a catequese infantil tinha início no colo dos pais, mas isso foi diminuindo gradativamente; por outro lado, muitos segmentos da Igreja a [catequese] desviaram quase que exclusivamente para o campo social, deixando as crianças e os jovens à mingua com relação aos Sacramentos, ao Credo, à Moral católica e à vida de piedade e oração. O povo, então, foi buscar a fé nas outras comunidades.
Portanto, urge que se estabeleça uma “nova catequese” para as crianças e jovens de modo especial. São Paulo, São Pedro e São João nos mostram o cuidado dos Apóstolos em preservar a “sã doutrina” (cf. I Timóteo 1,10). A apóstolo dos gentios fala do perigo das “doutrinas estranhas” (cf. I Timóteo 1,3); dos “falsos doutores” (cf. I Timóteo 4, 1-2); e recomenda a São Timóteo: “guarda o depósito” ( cf. I Timóteo 6,20).
O Concílio Vaticano II convocou de modo especial os leigos para essa urgente retomada na catequese: “Grassando em nossa época gravíssimos erros que ameaçam inverter profundamente a religião, este Concílio exorta de coração todos os leigos que assumam mais conscientemente suas responsabilidades na defesa dos princípios cristãos” (Concílio Vaticano II - Apostolicam Actuositatem, 6).
E o Documento de Santo Domingo, do IV CELAM, insistiu no mesmo ponto: “Instruir o povo amplamente, com serenidade e objetividade, sobre as características e diferenças das diversas seitas e sobre as respostas às injustas acusações contra a Igreja” (Doc. Santo Domingo, n.141).
Para sentirmos a gravidade das seitas hoje, basta dizer que o Parlamento Europeu declarou, em 1998, que nos últimos anos nasceram 20.000 (vinte mil) seitas em todo o mundo (12.000 no Ocidente e 8.000 na África), um fenômeno que envolve cerca de 500 a 600 milhões de pessoas (cf. L'Osservatore Romano, n. 35; 29/08/1998 – 12 (476).
Como enfrentar essa situação? Somente com uma boa catequese desde a infância. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) lembra que: “Os períodos de renovação da Igreja são também tempos fortes da catequese. Eis por que, na grande época dos Padres da Igreja, vemos Santos Bispos dedicarem uma parte importante de seu ministério à catequese” (CIC § 8).
Em 1979 o saudoso Papa João Paulo II, também preocupado com esse assunto [catequese], escreveu a “Catechesi tradendae” e chamou a Igreja a assumi-la; e aprovou em 1992 o novo Catecismo da Igreja, a pedido dos bispos que participaram do Sínodo dos Bispos de 1985. O Santo Padre endossou o pedido dos prelados reconhecendo que "este desejo responde plenamente a uma verdadeira necessidade da Igreja universal e das Igrejas particulares" (cf. CIC §10).
O mesmo saudoso Sumo Pontífice pediu “aos Pastores da Igreja e aos fiéis que acolham este Catecismo... e o usem assiduamente ao cumprir sua missão de anunciar a fé e convocar para a vida evangélica”. Insistindo que ele é “uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica, testemunhadas ou iluminadas pela Sagrada Escritura, pela Tradição Apostólica e pelo Magistério da Igreja (...) uma norma segura para o ensino da fé” (cf. Fidei Depositum).
Resta-nos agora empunhar o Catecismo e formar as crianças principalmente. O futuro da Igreja passa por elas. Mais do que nunca hoje é preciso formar bons catequistas, para formar na fé as crianças e os jovens. Mas, para isso, eles [catequistas] precisam estudar o “Catecismo da Igreja Católica”, a fim de ensinar o que a Igreja manda e não o que eles querem. Quem evangeliza o faz em nome da Igreja e não em seu próprio nome.
Só uma boa catequese poderá recuperar o que se perdeu em nosso país de formação católica e de amor à Igreja.
O QUE É AMAR?
O namoro é um aprendizado do amor. Fomos criados para viver o amor. Sem ele o homem e a mulher não podem ser felizes. Mas, afinal, o que é amar? O que leva muitos casamentos ao fracasso é a noção falsa que se tem do amor hoje. Há no ar uma “caricatura” do amor. Se eu lhe der uma nota de cem reais falsa, você não aceitará, pois ela não vale nada, e você ainda poderia ser incriminado por causa dela. Se você construir uma casa usando cimento falsificado, cuidado porque ela poderá desabar sobre a sua cabeça(...) Se você levar para o casamento um amor falso, ele certamente desabará, pois o “cimento” da união é o amor. Para mostrar bem claro o que é amar, vamos iniciar mostrando o que não é amar. Amor não é egoísmo; isto é, preferência por mim, mas pelo outro. Se você come uma fruta com gosto, não pode dizer que a ama. Se você treme de paixão diante de uma menina, e lhe diz : “eu te amo”, esteja certo de que você está mentindo, pois esta tremedeira é sinal de que você quer saciar o seu ego desejoso de prazer. Isto não é amor, é paixão carnal, é egoísmo. Se você está encantada com a beleza dele e se desdobra em declarar o seu amor por ele, saiba que isto também não é ainda amor, pois amor não é pura emoção ou sentimento.Amar é muito mais do que isso, pois não é satisfazer a si mesmo, mas ao outro. Quando você disser a alguém “eu te amo”, esteja certo de que você não quer a sua própria satisfação ou felicidade, mas a do outro. Cuidado com as “caricaturas” do amor porque são falsas, e não podem fazer a felicidade do casal. Todo jovem tem sede de amar, mas muitas vezes o seu amor é mascarado e se apresenta falso e perigoso. Amar não é apoderar-se do outro para satisfazer-se; é o contrário, é dar-se ao outro para completá-lo. E para isto é preciso que você se renuncie, se esqueça. Você corre o risco de, insatisfeito, querer apaixonadamente agarrar aquilo que lhe falta; e isto não é amar. Assim o amor morre nas suas mãos. Você só começará a compreender o que é amar, quando a sua vontade de fazer o bem ao outro for maior do que a sua necessidade de tomá-lo só para si, para satisfazer-se. São precisos oito anos para formar um médico, dez anos para se defender uma tese de doutorado. Para amar de verdade, será preciso uma longa preparação, porque somos egoístas. Sabemos, que a pressa é inimiga da perfeição. Há um provérbio chinês que ensina que tudo aquilo que quisermos construir sem contar com o tempo, ele mesmo se incumbe de destruir. Se você pintar uma parede que ainda está molhada, vai perder o serviço e a tinta. Se você tirar a comida do fogo antes de cozinhá-la, você vai comê-la ainda crua. Se você não aprender de verdade a amar, poderá construir um lar oscilante e de paredes frágeis, que poderão não suportar o peso do telhado.
As paixões sensíveis da adolescência não são o autêntico amor, mas a perturbação de um jovem que encontra diante de si os encantos e a novidade da masculinidade ou da feminilidade. É fácil entender que aqueles que quiserem construir um lar sobre este chão de emoções, estarão construindo uma casa sobre a areia. Muitos casamentos desabaram porque foram realizados “às cegas”, sem preparação para que houvesse harmonia, sem o aprendizado do amor. Amar é dar-se, ensina-nos Michel Quoist. É dar a si mesmo ao outro para completá-lo e construí-lo. Mas para que você possa verdadeiramente dar-se a alguém, você precisa primeiro “possuir-se”. Ninguém pode dar o que não possui. Se você não se possui, se não tem o domínio de si mesmo, como, então, você quer dar-se a alguém? Como você quer amar? A aspiração mais profunda do homem é amar, é a sua “razão de ser” ; mas há muitos mal-entendidos sobre o amor. O amor é hoje uma palavra tão mal usada, tão gasta, que é preciso ser redefinida para ser autêntica. O maior engano que existe hoje sobre o amor, é que, na maioria das vezes, quando alguém fala que está amando, na verdade está amando a si mesmo. Isto não é amor; é egoísmo. Há muitas “miragens” do amor.
Se o seu coração bate acelerado diante de alguém que o atrai, isto é sensibilidade, não chame ainda de amor. Se você perdeu o controle e se entregou a ele, isto é fraqueza, não chame isto ainda de amor. Se você está encantada com a cultura dele, fascinada pela sua bela carreira, e já não consegue mais ficar sem a conversa dele, isto é admiração, ainda não é amor. Mesmo que você esteja até às lágrimas, diante de um fato chocante, isto é mais sensibilidade do que amor. Amar não é “ser fisgado” por alguém, “possuir” alguém, ou ter afeição sensível por ele, ou mesmo render-se a alguém. Amar é, livre e conscientemente, dar-se a alguém para completá-lo e construí-lo. E isto é mais do que um impulso sensível do coração; é uma decisão da razão. Por isso, amar é um longo aprendizado, não é uma aventura como a maioria pensa. Não se aprende a amar trocando a cada dia de parceiro, mas aprendendo a respeitar o mesmo, tanto no corpo quanto na alma. Amar é uma decisão. E a decisão não é tomada apenas com o coração, empurrado pela sensibilidade. A decisão é tomada com a razão. Amar não é um ato intuitivo, mecânico, é uma decisão livre e consciente. É um ato da vontade, do querer. Para amar é preciso aceitar “perder-se”, esquecer-se, não voltar a si mesmo. É claro que a sensibilidade ajuda você sair de si mesmo, mas ela não é suficiente para levá-lo a amar. A admiração pelo outro, a afeição, empurram você para ele, mas isto ainda não é amor. Lembre-se, o amor é como uma via de mão única, que sai de você e vai até o outro. Esta é a verdadeira avenida do amor.
É preciso estar sempre atento para não andar na contramão nesta avenida. Isto ocorre quando você está pensando só em você mesmo, se apossando das coisas ou da pessoa do outro, para satisfazer-se. São João Bosco, o grande educador dos jovens, ensinava-lhes que “Deus nos colocou neste mundo para os outros”. É o sentido da vida. É o amor! Não existe outra maneira de ser verdadeiramente feliz. A felicidade verdadeira se constrói quando fazemos o outro feliz; quando amamos. Ela é o prêmio da virtude. E a virtude que gera o verdadeiro amor é a renúncia a si mesmo. Quando você agarra um objeto ou uma pessoa só para você, o amor morre em suas mãos; pois o apego é o oposto do amor. Você precisa ter a coragem de examinar a autenticidade do seu amor. Quando quisermos saber se estamos amando de fato, façamos então estas perguntas a nós mesmos: estou me renunciando? Estou esquecendo-me? Estou dando-me? Se a resposta for afirmativa, esteja certo da presença do amor em sua vida. Muito mais do que dar coisas, presentes, abraços, beijos, amar é dar de si mesmo, integralmente, desinteressadamente. Você precisa desenvolver bem os seus talentos exatamente para que possa dá-los aos outros e servi-los melhor. Quando amamos de verdade, nos tornamos livres de fato, pois o amor nos liberta de nós mesmos e das coisas que nos amarram. O seu egoísmo é o seu tirano! É claro que amar não é fácil. É fácil viver as caricaturas do amor, mas o autêntico amor é exigente. A autenticidade do amor se verifica pela cruz.
Todo amor verdadeiro traz o sinal do sacrifício. E é através desse sinal que você identifica o verdadeiro amor e o falso. Não há amor sem renúncia. Depois que o pecado entrou em nossa história, amar tornou-se uma “imolação a si mesmo”, uma verdadeira crucificação própria. Mas os seus frutos são doces. Não foi isto que Jesus nos ensinou? Ele veio a nós para ensinar o amor. A sua lição foi esta: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). Ele se apresentou como o “modelo” do verdadeiro amor. Não apenas Ele mandou amar, mas amar “como Eu vos amo”. E como Ele nos amou? Até à cruz! Antes de abraçá-la, Ele disse aos discípulos: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,12). Esta é a definição divina do amor: “dar a vida”. Isto não quer dizer que para você amar alguém, terá que morrer na cruz por ele, ou morrer de alguma outra forma. Isto significa que você deva “dar a sua vida” pelo outro, até a morte, isto é, o seu tempo, o seu dinheiro, a sua presença, etc. ..., e tudo isto desinteressadamente. Se houver uma “segunda intenção” em nosso amor por alguém, ele deixa imediatamente de ser puro, e morre. A grandeza do amor é a sua gratuidade. No “hino ao amor” (1Cor 13), São Paulo ensina que o “amor não busca o seu próprio interesse”. Este é o verdadeiro amor que sustenta o casamento e a família. O resto é caricatura do amor, miragens falsas e perigosas. Nada mais perigoso do que colocar o amor falsificado na base do casamento, pois ele não sustentará o lar. Todas as grandes obras realizadas neste mundo foram projetos de um amor verdadeiro.
Quando se planta amor, se colhe amor, ensinava São João da Cruz. Muitas vezes você pode ter reclamado de que não recebeu amor, mas será que você semeou amor ali naquele lugar? Se você amar gratuitamente, receberá tudo de volta. Se nos apegarmos ciosamente a nós mesmos e às criaturas, acabaremos perdendo tudo. O mesmo São João da Cruz ensina a “dar tudo pelo Tudo”. Quando aceitamos dar tudo, e não reter nada, o próprio Deus se dará a nós. Se você quiser experimentar a verdadeira felicidade, terá então que dar esse passo difícil, de correr o risco, da renúncia no vazio da noite, da caminhada em direção à morte do ego. E tudo isto dará a você a vida. É difícil se desvencilhar dos amores falsos, porque eles são “lucrativos” , trazem o prazer momentâneo e a satisfação para o ego, mas tudo isto passa rápido, e acaba deixando gosto de morte. Somos enganados e seduzidos pelos amores falsos exatamente pela recompensa imediata que eles nos oferecem. Mas é preciso que você saiba que as suas recompensas são efêmeras e se dissipam como bolhas de sabão. Quanto mais você souber dar-se mais saberá amar. E quanto mais você amar, mais feliz será.
Quando você se dá a alguém, total e gratuitamente, esta pessoa o enriquece, pois o amor faz crescer aquele que ama. Quando você ama alguém de verdade, descobre os tesouros desta pessoa e se enriquece com os talentos dela. E isto vai até o infinito... Alguém já disse que “o mundo pode ser salvo pela vitória do amor”. Mas este amor precisa ser autêntico, gratuito e desinteressado, porque o amor falso, as suas miragens (egoísmo, amor-próprio) só geram a tristeza, a decepção, o envelhecimento e o fracasso. Quando você ama de verdade, não só se abre para outro, mas se abre para Deus, pois “Deus é amor”. “Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é perfeito” (1Jo 7,12). “Aquele que não ama não conhece a Deus porque Deus é amor” (1Jo 4,8). Para que o seu namoro seja rico é preciso basear-se neste amor que é doação de si mesmo para construir o outro. Se não houver amor, não haverá crescimento mútuo, e será tempo perdido. O seu namoro só terá sentido se for um aprendizado do autêntico amor. O amor tem muitas faces: a compreensão, a aceitação do outro, o perdão, a busca da verdade, a paciência, a sinceridade, a fidelidade, a bondade, o perdão, e tudo que faz o outro crescer.
Para você meditar:
ORAÇÃO DO SÉCULO XX
Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa comunicação onde tantos enviam bombas e destruição, que eu leve uma palavra de união ! Onde tantos procuram ser servidos, que eu leve a alegria de servir ! Onde tantos fecham a mão para bater, que eu abra meu coração para acolher ! Onde tantos adoram a máquina, que eu saiba venerar o homem ! Onde tantos endeusam a técnica, que eu saiba humanizar a pessoa ! Onde a vida perdeu os sentido, que eu leve o sentido de viver ! Onde tantos me pedem um peixe, que eu saiba ensinar a pescar ! Onde tantos me pedem um pão, que eu saiba ensinar a plantar ! Onde tantos estão sempre distantes, que eu seja alguém sempre presente ! Onde tantos sofrem de solidão que faz morrer, que eu seja o amigo que faz viver ! Onde tantos morrem na matéria que passa, que eu viva no espírito que fica ! Onde tantos olham para a terra, que eu saiba olhar para o céu !
Pe Atílio Hartmann. S. J.
A CARTA DO ALÉM
À Guisa de PrefácioCom os homens, Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos homens, escrita e transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros sonhos sem base(...)
A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação eterna de uma jovem. À primeira vista parece uma história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico, como base do seu sentido moral e do seu alcance transcendental.
A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A Cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumamente instrutiva.
A Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o R. Pe. Bernhardin Krempel C. P., doutor em teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas Anotações, a absoluta concordância com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.
No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o Inferno. O primeiro ponto assinala dois trabalhos literários que por caminhos diferentes chegam à mesma conclusão que o Inferno deve existir e que de fato existe. Nos seguintes pontos expõe-se sumariamente quais são os que trilham o caminho do Inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida, de cair no Inferno.
Informações preliminares
Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como freira, foi encontrado o seguinte depoimento:
"Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M.
Quando mais tarde Âni se casou, nunca mais a vi. Desde que nos conhecêramos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade.
Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.
Quando no outono de 1937 passei minhas férias no lago Garda, minha mãe escreveu-me, em meados de setembro: "Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato".
Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
Na outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das irmãs, onde eu morava, à santa missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a Santa Comunhão.
Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda pela tarde.
Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como se sacudida a porta do quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado mudo, marcava meia noite e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do pensionato. De vento, nada eu ouvia.
Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido, além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a escrivaninha.
Refleti um momento, se devia levantar-me.
Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte.
Virei-me, rezei alguns Pai-Nossos pelas almas, e adormeci de novo.
* * *
Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da casa. Quando abri a porta do quarto, dei com o pé num maço de folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.
Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que nem podia proferir o Pai-Nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação. Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa.
Fora, subi o caminho que seguiu tortuoso para cima, por entre oliveiras, loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada "Gardesana".
A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e como uma criança olha admirada para o avô, assim eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de 64 m acima do nível do mar até 2.200 m de altura.
Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente "A donzela Teresa". Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão frequentemente se encontram.
Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela a grande "S"-voluta, nem o "T" francês, a que se havia acostumado no escritório para irritar o Sr. G.
O estilo não era o dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu gracioso nariz.
Somente quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. (Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).
Eis aí
A CARTA DO ALÉM DE ANI, V.,
Palavra por palavra, tal qual a li no sonho:
"Clara! Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como "Parcela daquele Poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem".
Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar. [S. Tomas de Aquino, Summa Theológica (S. Th.) Supplementum (Suppl.) q. 98, a. 4: "Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados".]
Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma. A nossa vontade está petrificada no mal - no que vós chamais "mal". Mesmo quando fazemos algo de "bem", como eu agora, descerrando-te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa intenção.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 1: "Neles o autodeterminado querer é sempre de todo perverso".]
Lembra-te ainda:
Fez 4 anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei.
Tiravas-me bastante vezes de embaraços; davas-me a mim, principalmente, freqüentes bons avisos. Mas que é que se chama "bom"!
Eu louvava, então tua "caridade". Ridículo... Tuas ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.
Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!
Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.
* * *
Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido. Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.
Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.
Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugir a esses tormentos! Não há volúpia comparável à de acabar minha existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 3, r. ib. ad 3: "Enquanto a inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela para os condenados um bem maior do que sua miserável existência... Assim desejam a não existência."] Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da minha existência.
Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade, perderam o contato com a Igreja.
Assim era melhor.
Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num aile e viram-se "obrigados" a casar meio ano depois.
No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta, suficientes apenas para atrair mamãe à missa domingueira raríssimas vezes por ano.
Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.
Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os frequentadores de igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.
Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama incandescente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 7, r.: "Nada há nos réprobos, que não lhes seja matéria e causa de tristeza... Assim dirigindo sua atenção sobre coisas conhecidas".]
E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma graça que desprezamos. Como isso atormenta! Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.
Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 4, r.: "Nos réprobos domina um ódio total".]
Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.
Os bem aventurados no Céu devem amá-Lo. Porque O veem desveladamente em Sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 9, r.: "Ante o dia do juízo universal sabem os réprobos que os bem aventurados se encontram numa inefável glória."]
Os homens, na terra, que conhecem Deus pela criação e revelação podem amá-Lo; não são forçados a fazê-lo.
O crente - furiosa eu te digo aqui - que contempla, meditando, cristo estendido na cruz, O amará.
Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 8, ad 1, ib. ad 5, r.: "Os réprobos só enxergam em Deus o castigador e impedidor (do mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam no castigo, efeito da sua justiça, odeiam-nO".] Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais, nem jamais quereremos revogá-la.
Compreendes tu agora por que o Inferno há de ser eterno? Porque a nossa obstinação nunca derrete, nunca termina.
Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda misericordioso para conosco. Disse "forçada". A razão é esta: ainda que voluntariamente escreva esta carta, não me é possível mentir, como eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reengolí-la.
Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente - como a mim - ou introduziu circunstâncias atenuantes.
Agora Ele se nos torna misericordioso porque não nos obriga a nos aproximar Dele, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno, diminuindo-nos o tormento.[S. Th. I, q. 21, a. ad. 1.: "Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus... , no que os castiga menos do que merecem". - Em outro lugar nota o santo doutor da Igreja, que isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos para com os outros (S. Th. Suppl. q. 99, a. 5, ad 1.)]
Cada passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um passo mais perto de uma fogueira.
Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai me dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão: "Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de burla".
Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos 12 anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, que postergava facilmente tudo quanto era religião, e não levei a comunhão a sério.
O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos 7 anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O "branco" Deus será menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o amor, frutos do batismo - escarro sobre tudo isso - ainda estão vivos no coração da criança.
Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?
Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei isso: tinha vergonha. Ah! que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é indiferente.
Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe, papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e ficastes escandalizada sobre o meu capricho - e de que não te escandalizastes em mim? - um dia, pois, devolveu duas vezes sapatos novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna.[Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.]
Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte. Hoje, porém, deves sabê-lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se acercou de mim.
Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam seu profundo sono.
De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: "Que acontecerá, se teu pai morrer?"
Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe. Já não amava propriamente ninguém: só me prendia a alguns que eram bons para mim. - Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia.
Respondia assim ao misterioso interlocutor: "Com certeza ele não morre".
Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta sem me incomodar de saber, de onde provinha.
"Qual o que! Ele não está morrendo" escapou-me casmurra.
Pela terceira vez fui interrogada: "Que acontecerá se teu pai morrer?"
De relance me surgiu no espírito como meu pai freqüentes vezes voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!
Gritei, então embirrada: "Pois não, é quanto merece! Que morra!"
Depois, ficou tudo quieto.
Na manhã seguinte, quando mamãe foi para arrumar o quarto de papai, encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se meio vestido em cima da cama - morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega, deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado. - (Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)
* * *
Marta K. e tu me fizestes ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, duas senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar nele papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.
Admoestaste-me um dia: "Âni, se não rezares mais, perder-te-ás". Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.
Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para aquela que é a mãe do Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.
Furiosa continuo - por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a essa facilidade Deus ligou a salvação.
A quem reza com a assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até o pescoço.
Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.
Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.
* * *
Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Frequentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.
À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhe as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.
Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou à mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.
Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me aliás afirmar: Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo desapercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: "Faça, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem".
Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me seguravam nas suas garras.
Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a pessoas como eu então era, o demônio influencia poderosamente.[A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos "demônio" ou "diabo". Como comprovação da sua existência bastam dois textos da S. Escritura: "Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar". (1 Petr. 5, 8). O rugir não se refere ao que satanás faz muito alarme com as suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. - S. Paulo escreve aos Efésios (*, 12): "Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares."]
Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele.
E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos. O demônio não pode tirar o livre arbítrio àqueles que se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua apostasia quase total de Deus, Este permite que o "Mau" neles se aninhe.
Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 6, ad 2: "Não é tarefa dos homens condenados, perderem e tentarem outros, porém dos demônios."]
A nós homens réprobos não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos espíritos caídos.
Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio![S. Th, q. 98, a. 4, ad 3: "O crescente número dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal modo cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com muitos, do que menos sozinhos."]
Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava o caminho à graça, por serviços de caridade natural, que por inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.
Às vezes atraía-me Deus para uma Igreja. Lá eu sentia certa nostalgia. Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto, atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.
Uma vez - foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de meio dia - fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da minha conversão. Eu chorava.
Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma torrente, por sobre a graça. Os espinhos aforaram o trigo. Com a explicação de que religião é sentimentalismo conforme sempre se dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.
Repreendestes-me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira inclinação da cabeça. Tomastes isso como preguiça e não parecias suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.
Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres, numa sucessão sem fim.
Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo tornado inofensivo.
Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.
Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar deus; a mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assas confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.
Esse "deus" não tinha um céu para me galhardear nem inferno para amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.
No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me incomodasse.
Só uma coisa lhe teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas este sofrimento não veio. Compreende agora: "A quem Deus ama, Ele castiga!"
Era um dia de estio, em julho, quando a associação das moças organizava uma excursão para A. Gostava eu sim das excursões. Mas não das beatarias anexas!
Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A., estava, desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.
Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava ainda em casar-me com ele. Era afortunado, porém amável demais para com muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como única mulher. Certa distância sempre me era própria. [Isso era verdade. Com toda a sua indiferença religiosa Âni tinha algo de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas "honestas" possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus]
Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de beatas é que não tivemos, como vocês.
No outro dia, no escritório, repreendestes-me porque não vos acompanhei até A. Contei-te os meus divertimentos domingueiros.
Tua primeira pergunta era: "Estivestes na missa?" Louca! Como podia assistir à missa, desde que combinamos a saída para 6 horas! Lembras-te, ainda, que juntei excitada: "O bom deus não é tão mesquinho como os vossos padrecos?" Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.
Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente, já estava apartada de vocês.
Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.
Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava furiosamente. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.
Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhante sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.
Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de Deus.
Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me retinha, vedava.
Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me conquistar Max. Para isso nada achava caro de mais. Amamo-nos aos poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.
Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer de uma criatura o meu deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas de diferentes sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A "adoração" que eu me prestava em Max, tornou-se-me uma religião vivida..
* * *
Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caia em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das demais bugigangas.
Emprenhastes-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando - dele eu precisava ainda - para justificar racionalmente a minha apostasia.
No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa "ressalva" não me podia fazer mal, pensava eu.
Por mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.
Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.
Vós o chamais "indigno". Após aquela "indigna" comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.
Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um - naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa ideia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.
Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.
Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo. (De minha mãe eu me envergonhava então). Esses nadavam bem como nós, na superfície da existência.
Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.
Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que deus recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.
* * *
Minha religião estava às últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.
Todos os que lá frequentavam, vivam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.
Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico das obras primas. O sopro religioso que irradiavam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstâncias da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o estar um tanto sujo e desajeitado; criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas dos sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de dinheiro.
Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.
Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam os demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhes mais e mais vítimas.
Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.
Sobretudo escarnecia eu sempre do foto do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: "É assim que cheira!"
Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: "Afastai-vos de mim, vós, malditos, ide para o fogo eterno". Literalmente!
Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.
Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?
Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!
Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos.[S. Th. Suppl. q. 70, a. 3, r.: "O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer."]
Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do Inferno queima sem consumir.
O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus.
Quanto pode torturar o que na terra nos era indiferente! Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.
Agora sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.["A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus" (Frase atribuída a S. Agostinho. Cf. Houdry, Biblioteca concionatorum - Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427)]
Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.
Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.
Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.
Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.
Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!
Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter - assim eu pensava no íntimo.
O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, de certo não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as consequências.
Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.
* * *
Minha morte ocorreu do seguinte modo:
Há uma semana - falo de acordo com a vossa contagem, porque calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos - faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.
Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento..
Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro, e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.
Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Sentia uma dor esmagadora por compressão - uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.
Estranho! Naquele manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a ideia: poderias, enfim, mais uma vez ir à missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido cortou meu "Não" o fio da ideia. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as consequências. Agora as suporto.
* * *
O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos.
Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro.["As almas de falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material". (S. Th. Suppl. q. 98, a. 3).]
* * *
Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.
Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último "Não" dado a Deus.
Apossou-se de mim a impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. - Arrepender-me? Nunca! [S. Th. Suppl. q. 98, a. 2, r.: "Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém enquanto são castigados pelas penas dos pecados".] - Envergonhar-me? Jamais!
Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.
Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.
Esse era o Juízo particular.
O invisível juiz falou: "Afasta-te!" Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno.[ "É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe."
A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que "eterno" não se deixa trocar e interpretar por "longo".
Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação.
A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: "Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos". Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: "Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes", a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. Bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).["É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe."
A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que "eterno" não se deixa trocar e interpretar por "longo".
Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: "Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos". Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: "Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes", a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. Bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).]
* * *
Últimas informações de Clara
"Assim finalizou a carta de Âni sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.
Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da igreja paroquial vinham as badaladas das ave-marias.
Pois tudo era apenas um sonho?
Nunca eu sentira na Saudação Angélica, tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três ave-marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quisesse ter a mesma sorte que te contou - ainda que em sonho - uma alma que jamais verá Deus.
Espantada e tremendo ainda pela visão noturna levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.
O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.
Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: "Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso".
Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: "Nada te deve angustiar - conheces o aviso de S. Teresa - nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta."
Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.
"Deus só basta". Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno."
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